Felipe Salto
Os efeitos da guerra começam a se espalhar para além do preço do petróleo e dos repasses aos preços dos combustíveis. Em ano eleitoral, os riscos de ações com apelo popular e custo elevado podem se materializar. Será preciso uma boa coordenação, sob pena de se deixar um legado preocupante para o próximo mandato presidencial. No curto prazo, temos algumas vantagens, como mostrarei.
De um lado, as bombas de diesel e gasolina, a despeito do reforço da fiscalização, já refletem os preços mais altos do petróleo, mesmo com a Petrobras tendo realizado apenas um reajuste (e apenas no diesel), após a redução do PIS/PASEP e da COFINS pelo governo federal. De outro, os setores de alimentos começam a enfrentar maiores custos de transportes, o que poderá afetar os preços correntes e projetados dos alimentos.
A evolução dos preços do petróleo continua errática, agora com uma nova subida para patamares superiores a 100 dólares por barril, após alguns dias operando na faixa de 90 a 100. Os efeitos para a economia mundial decorrentes de uma maior extensão da Guerra no Irã serão profundos. No caso do Brasil, temos alguns elementos importantes a discutir.
As projeções do mercado, conforme coleta da Pesquisa Focus, do Banco Central, mostraram, nesta manhã, uma nova onda de revisões para cima, já pela terceira semana consecutiva. Há quatro semanas, a mediana das estimativas coletadas indicava inflação de 3,91% para 2026. Agora, o mercado projeta 4,31% para a inflação medida pelo IPCA no encerramento de 2026. Também as projeções para 2027 pioraram, passando de 3,79% para 3,84%.
As projeções para o PIB, por sua vez, passaram de 1,82% para 1,85%, também em um período de quatro semanas. Não se trata de um quadro alarmante, como se vê, já que as perspectivas para a economia já se situavam no campo da desaceleração (e, agora, até melhoraram marginalmente), digamos, desde o ano passado. O PIB do último trimestre de 2025 apontou um consumo das famílias bem mais modesto, com taxa de variação equivalente a uma fração do desempenho de 2024. De todo modo, trata-se de um crescimento econômico baixa, que poderá ser ainda menor caso a guerra dure mais tempo.
Ocorre que as pressões inflacionárias se avolumam para redundar em aumento de custos de produção, o que se combina com juros mais resilientes, haja vista as preocupações manifestadas pelo Banco Central, na semana passada, a despeito de o nível de juros ser bastante elevado no Brasil. Não só se iniciou a redução dos juros de modo mais modesto (redução de 0,25 ponto de percentagem), como os comunicados oficiais deixaram dúvidas sobre a continuidade e a dimensão do ciclo de afrouxamento.
Do lado positivo, a balança comercial brasileira será beneficiada, dado que o país é superavitário na conta petróleo. Isso retira pressões, no curto prazo, do déficit externo (déficit em transações correntes) e ameniza parte dos efeitos negativos do quadro internacional sobre a economia doméstica. Também as contas públicas ganham um reforço temporário com a alta do petróleo (royalties, dividendos e receitas de impostos sobre faturamento e lucro).
Essas incertezas colocam ainda mais tempero no caldo de sabor quase inescrutável preparado para as eleições gerais de outubro. O elevado acirramento indicado pelas pesquisas de opinião, sugerindo repetição do quadro de 2022, nesse aspecto, pode ser afetado pela dinâmica econômica, a depender dos fatores expostos acima.
Argumentei, há duas semanas, neste espaço, que o Banco Central não deveria ter alterado seu plano de redução da Selic, aproveitando-se da enorme capa de gordura existente nos juros brasileiros. Afinal de contas, qualquer cálculo que incorpore o risco da economia brasileira, vis-à-vis ao das economias mais seguras, jamais indicaria uma taxa real de juros de 11%, nível que temos praticado sem dó.
Não se trata de desprezar a cautela e o caldo de galinha, sempre recomendáveis nos momentos de fragilidade. Mas é preciso ter claro que a situação relativa do Brasil é positiva, sobretudo quando comparada à de outros emergentes. O nível elevado de reservas internacionais, o quadro positivo no balanço de pagamentos e o crescimento econômico mediano, com inflação sob controle, nos colocam numa posição inicial boa. Não fomos pegos de calças curtas.
Claro que a questão fiscal é o antigo calcanhar de Aquiles a nos assombrar. Mas, mesmo neste quesito, estamos bem longe de um quadro de insolvência do setor público. O caixa do Tesouro Nacional é altíssimo, dotado de um colchão de liquidez suficientemente robusto para lidar com momentos de crise, e a dívida pública é alta e crescente, mas não apresenta trajetória explosiva. O déficit primário melhorou, desde 2023, e o maior custo reside na conta de juros, precisamente.
Será necessário, obviamente, aguardar os próximos capítulos da novela para avaliar com clareza o que vai acontecer por aqui. Desde logo, contudo, é possível antecipar que o governo não ficará parado, como já demonstrou nas medidas do diesel e na proposta de subvenção compartilhada para os Estados. Recomenda-se que qualquer medida tomada continue a preservar o princípio da neutralidade fiscal.
A repetição do populismo de 2022 seria um quadro pessimista. Vamos evitá-lo?