Notícias

Planejamento Urbano
SERÁ MESMO POSSÍVEL UMA CIDADE INCLUSIVA DE SEUS MISERÁVEIS?
06/05/2026
Geól. Álvaro Rodrigues dos Santos

Esse pequeno texto não brota de certezas, mas de muitas e angustiantes dúvidas e

frustrações profissionais.

Primeiro uma definição, aqui entendo Cidade como o conjunto de infraestruturas e

operacionalidades urbanas capazes de acolher e prover o atendimento digno das

necessidades físicas e espirituais de todos seus moradores.

Já há muitas décadas uma das principais preocupações de boa parte dos profissionais que lidam com a construção da cidade e com as diretrizes urbanísticas para tanto, assim

como de muitos administradores públicos com honesta preocupação social que se

revezam nos poderes executivos e legislativos dos três níveis de poder, federal, estadual e

municipal, tem sido o atendimento em infraestrutura da enorme demanda da população

de baixa renda, com destaque para a habitação. Mais recentemente, essas mesmas

preocupações foram abrigadas na proposta de cidades inclusivas, ou seja, aquelas capazes de incluir nos paradigmas urbanos civilizados de atendimento a grande parte da

população mais pobre que deles está secularmente apartada. Também em uma proposta

mais fluida, de cidades sustentáveis, essas mesmas preocupações se fazem presentes e

exigem um penoso esforço de formulação de propostas que se mostrem viáveis.

Em termos práticos, muito pouca coisa se realizou de concreto e de real por obséquio de

todo esse esforço de inclusão dos mais pobres na cidade estruturada e infraestruturada

em que hoje estão instalados os estratos sociais médios e altos da população urbana

brasileira.

Tomando a questão habitacional como exemplo, não fosse a própria população de baixa

renda ter assumido autonomamente a solução de seu problema habitacional, elegendo

para tanto, de forma totalmente independente e espontânea, a tecnologia possível para

ter sua casa própria, qual seja a autoconstrução com base no bloco/laje, a crise

habitacional em muitas grandes e médias cidades brasileiras teria já atingido um grau de

total insuportabilidade. Hoje as zonas periféricas de expansão urbana apresentam-se

como verdadeiros oceanos de habitações auto-construídas em bloco-laje. Ainda que a

habitação assim resultante seja tecnicamente precária, com baixo conforto ambiental, o

problema maior dessa população não está na edificação propriamente dita, mas sim na

generalizada ausência de infraestrutura urbana de suporte, nas péssimas condições de

saneamento, nos riscos geológicos induzidos, na deterioração acelerada e precoce de

toda a área ocupada, na distância ou na ausência do trabalho, na desqualificação

ambiental de todo o bairro, na falta de suporte para a criação dos filhos, etc., etc.

Enfim, os mais pobres continuam vivendo sua própria realidade urbana, uma realidade

de completa privação de todos os atributos de qualidade de vida que a cidade estruturada oferece a seus habitantes socialmente mais favorecidos. Essa cidade estruturada, com bons níveis de infraestruturas e operacionalidade urbanas, como não poderia deixar de ser, é vista pelos mais pobres como um mundo estranho a eles, como um mundo que não é deles e que não é para eles, excluídos que são, inclusive geograficamente, de todos seus atributos de dignidade humana. Por óbvio que bons sentimentos essa exclusão humilhante e perversa não pode gerar entre os moradores mais pobres. E moralmente nem podem deles ser cobrados pelos moradores da cidade, vamos dizer, bonita. Não há como, está estabelecida uma relação doentia e agressiva entre esses dois universos urbanos tão diferentes e tão conflitivos.

Tenho lidado com o amontoado urbano periférico por força da atividade profissional

voltada à redução de riscos geológicos e hidrológicos, em especial deslizamentos e

enchentes. Vivi e senti os dramas cotidianos dessa população carente de tudo, que é

humilhada em todas as situações em que é obrigada a se relacionar com a cidade

estruturada. E percebendo o tão pouco que a ação profissional de redução de riscos

pode de fato resultar em uma realidade tão perversa, em para uma área que tenha sua

estabilidade geotécnica equacionada, abrem-se na mesma região um sem número de

novas situações de instabilidade e riscos.

A realidade se impõe, e muito mais do que possam almejar nossos desejos

humanos e profissionais, percebemos que é a cruel desigualdade social que

marca a sociedade brasileira que, ao fim, desenha e define a cidade real em que

vivemos.

Será possível caminharmos, ainda que lenta e progressivamente, para uma cidade

inclusiva, que incorpore suas grandes periferias sociais e seja capaz de estender-lhes os

atributos civilizatórios alcançados pela cidade central e estruturada, mesmo com a

manutenção dos atuais níveis de pobreza e desigualdades sociais? A mais elementar

lógica básica do sistema social e econômico em que vivemos, aquela que sentencia que as demandas de um cidadão são atendidas na medida de sua capacidade de compra, vem nos sugerindo que não. E o considerável fracasso do empenho de eventuais profissionais e administradores públicos nas lidas por uma cidade inclusiva também pode estar nos falando dessa inexorável impossibilidade. Enfim, sobra no ar a desconfiança que o sonho de uma cidade inclusiva somente se tornará realidade em uma sociedade onde a desigualdade social, ao menos em seu vergonhoso nível atual, tenha sido civilizadamente superada.

Até lá, o que caberá a nós profissionais dedicados a essa quimera? Quais os limites do

possível na extensão de uma melhor qualidade urbana para as zonas de exclusão? Diante

do quadro qual a atitude mais sensata e positiva frente às leis urbanas maiores de uso do

solo? Como não nos enganarmos a nós próprios e como não vendermos ilusões

descabidas à gente pobre? Entendendo a crueldade implícita em um cômodo gesto de

“jogar a toalha”, como prosseguirmos em nosso impulso profissional de solidariedade e

compaixão humana?