Durante muito tempo, o El Niño foi visto pelo agronegócio brasileiro como um fenômeno predominantemente favorável. O aumento das chuvas no Sul costumava reduzir o risco de estiagens e contribuir para o desempenho de culturas como soja, milho e arroz. Essa percepção, porém, já não reflete integralmente a realidade da agricultura nacional.
A transformação geográfica da produção de grãos nas últimas décadas alterou a relação entre o clima e o desempenho do setor. O Brasil produzia cerca de 100 milhões de toneladas de grãos no início dos anos 2000. Hoje, a safra supera 350 milhões de toneladas.
Grande parte desse crescimento ocorreu no Centro-Oeste e, mais recentemente, na região conhecida como MATOPIBA, que reúne áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.
O problema é que essas regiões respondem de forma diferente ao El Niño. Enquanto o Sul costuma registrar aumento das precipitações, áreas centrais do país frequentemente enfrentam atraso no início das chuvas, veranicos mais prolongados e temperaturas acima da média.
Para culturas altamente dependentes de condições climáticas favoráveis durante o plantio e o enchimento de grãos, essa combinação pode representar perdas expressivas.
Os números recentes ajudam a ilustrar essa mudança. Na safra 2014/15, o Brasil colheu 209,5 milhões de toneladas de grãos. Sob influência do forte El Niño de 2015/16, a produção recuou para 186,6 milhões de toneladas. O mesmo padrão voltou a aparecer durante o episódio de 2023/24. Após registrar o recorde de 322,8 milhões de toneladas na safra anterior, o país viu a produção cair para 298,4 milhões de toneladas.
É evidente que nenhum evento climático explica sozinho o resultado de uma safra. Aspectos econômicos, tecnológicos, fitossanitários e logísticos também influenciam o desempenho do setor. Ainda assim, chama atenção o fato de que os dois episódios mais intensos de El Niño das últimas décadas tenham coincidido com reduções significativas na produção nacional de grãos.
A explicação está menos na intensidade do fenômeno e mais na localização das áreas agrícolas. Hoje, estados como Mato Grosso ocupam posição central no abastecimento global de soja e milho. Quando essas regiões enfrentam calor excessivo e irregularidade de chuvas, os impactos tendem a superar os benefícios observados em parte da Região Sul.
As projeções mais recentes apontam para o início de um El Niño já no final de junho. Há indicações de que o fenômeno poderá persistir até o primeiro semestre de 2027. Ainda é cedo para estimar sua intensidade ou duração, mas os antecedentes recomendam cautela.
O histórico recente sugere que a agricultura brasileira pode estar mais exposta aos efeitos adversos do fenômeno do que estava há vinte ou trinta anos.