Notícias

Economia
Custo Brasil e produtividade mantêm Brasil entre os menos competitivos do mundo
País caiu sete posições no recém-publicado Ranking Mundial de Competitividade 2026 do IMD/FDC. Despesas públicas elevadas, taxa de juros e desequilíbrio fiscal também estão entre os principais fatores para a queda no desempenho, segundo especialistas ouvidos pelo Diário do Comércio
23/06/2026
Diário do Comércio da ACSP

Rebeca Ribeiro

O Brasil caiu sete posições no Ranking Mundial de Competitividade de 2026, saindo da 58ª colocação, em 2025, para a 65ª posição entre os 70 países avaliados. O resultado representa o pior desempenho do país nos últimos anos e o coloca entre os seis últimos do ranking, à frente apenas de Botsuana, Mongólia, Nigéria, Namíbia e Venezuela, e atrás de países em desenvolvimento como Gana e Peru. O levantamento é realizado pelo IMD World Competitiveness Center (WCC) em parceria com a Fundação Dom Cabral (FDC).

O ranking é avaliado de acordo com a percepção de executivos em conjunto com dados estatísticos, e considera fatores como desempenho econômico, eficiência governamental e empresarial e infraestrutura. Comparado com 2025, o país registrou piores resultados em desempenho econômico, passando da 30ª para a 36ª posição, e em eficiência empresarial, da 56ª para a 67ª colocação.

A queda no desempenho econômico revela o baixo crescimento e dinamismo do país nos últimos anos, comparado com a economia mundial. Desde 1980, o Brasil cresce anualmente 2,1%, contra 3,6% do mundo. Já entre 1950 e 1980, o país crescia acima da média mundial, sendo 7,3%, contra 4,5% da economia mundial, segundo Antonio Lanzana, professor de economia da Universidade de São Paulo (USP).

Ainda segundo o economista, a 69ª posição do Brasil em eficiência governamental evidencia a ineficácia do aumento do gasto público no Brasil. “Com o crescimento do Estado brasileiro, o gasto público passou de 25% do PIB nos anos setenta para mais de 40% e ocorreu de forma extremamente ineficiente; a reforma administrativa, que poderia aumentar a eficiência do gasto público, sequer chegou a ser apresentada”, diz.

O aumento das despesas públicas também influencia a eficiência empresarial, isso porque a expansão desses gastos faz com que o Banco Central mantenha a taxa de juros elevada, inviabilizando negócios e desestimulando investimentos. “Basta observar que, nos últimos doze meses, 1,5 milhão de empresas pediram recuperação judicial e várias entraram em processo de recuperação extrajudicial”, diz Lanzana.

O Brasil aparece nas últimas posições em indicadores como custo de capital, educação básica, endividamento corporativo e produtividade da força de trabalho. Para Gabriel Ferraz, advogado e especialista em políticas públicas para melhorar o ambiente de negócios, o ranking destaca o desequilíbrio fiscal, a imprevisibilidade institucional, a baixa produtividade e um fornecimento de crédito com custos elevados.

“Nos últimos anos, o Brasil tem sofrido com o aumento dos gastos e uma grande pressão pela redução de despesas. Isso afeta os custos para tomar dinheiro emprestado, refletindo em uma elevada taxa de juros”, diz o especialista.

Com opinião semelhante, Lanzana afirma que o custo de capital é reflexo dessa alta taxa de juros — atualmente, a Selic está em 14,25% —, provocada pela inconsistência da política econômica, uma política fiscal expansionista e uma política monetária restritiva.

“Taxas reais de juros da ordem de 9% a 10% consomem o EBITDA e inviabilizam muitos investimentos. Basta observar a baixíssima taxa de investimento registrada na economia brasileira no primeiro trimestre deste ano (16,5%)”, afirma o economista.

Apesar de o Brasil ser um país emergente e estar atrás de países como Gana, Lanzana destaca que, embora haja certa correlação entre competitividade e renda per capita, essa estatística não é exata. Dessa forma, mesmo países economicamente menos relevantes podem apresentar um ambiente de negócios mais favorável.

Uma das principais queixas dos executivos entrevistados pelo ranking são as restrições a crédito e financiamentos, dificultando a confiança dos negócios – assim como a escassez de mão de obra e os custos crescentes do trabalho, que representam uma grande preocupação, segundo Ferraz.

“O ranking também destaca que o Brasil atrai investidores, mas ainda são necessárias regras mais duras sobre normas fiscais, previsibilidade e produtividade”, diz o advogado. Apesar de esses fatores não atrapalharem efetivamente os investimentos no país, devido ao mercado brasileiro e à sua posição geopolítica, eles causam certo ruído no mercado internacional.

Para Fernando Schuler, cientista político e professor do Insper, atualmente um dos principais problemas do Brasil é a estagnação da produtividade há cerca de três décadas exceto no agronegócio, devido à falta de qualificação da mão de obra, assim como o ambiente econômico e a segurança jurídica – o que implica na necessidade de reformas estruturais, que não têm sido priorizadas pelo Brasil, sacrificando a produtividade.

Além disso, Schuler destaca que os dados refletem o adiamento do governo em realizar essas reformas devido aos custos no curto prazo, que podem afetar toda a sociedade brasileira no longo prazo. “O governo vem adotando medidas distributivistas no curto prazo, com o crescimento muito forte do endividamento público às custas da produtividade”, diz Schuler.

Com essa posição, o Brasil acaba perdendo oportunidades de competitividade, uma vez que o investimento em produtividade e mão de obra qualificada é baixo, e o custo Brasil continua sendo muito elevado devido à alta carga tributária, dificultando sua competitividade em relação ao mercado global, completa o cientista político.

Fim da escala 6×1

Atualmente, o Brasil discute no Senado Federal o fim da escala 6×1 e a redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais, mesmo tendo baixos indicadores de produtividade e competitividade. Para Lanzana, a redução terá efeitos negativos na competitividade da economia brasileira.

“Os motivos são vários: aumenta o custo do trabalho, retira flexibilidade dos ajustes da mão de obra às condições peculiares de cada empresa e setor; afeta principalmente pequenos negócios nas áreas de comércio e serviços; estimula a informalidade no mercado de trabalho, entre outros.”

Lanzana defende que as condições de trabalho deveriam ser negociadas entre empresários e trabalhadores devido às particularidades de cada setor. “Infelizmente, o populismo fala mais alto, principalmente considerando que é um ano de eleições”, diz.

Melhora na competitividade

Para o economista da USP, além de um maior controle dos gastos públicos e, consequentemente, de uma menor taxa de juros, é preciso uma maior abertura comercial, aumentando dessa forma, a produtividade.

“Isto pode ser observado pela evolução da produtividade por hora trabalhada na agropecuária, que cresceu 6% ao ano nos últimos 30 anos  impulsionada pela maior abertura ao exterior, ao passo que a produtividade da indústria, muito protegida, caiu 0,2% ao ano nesse mesmo período.”

Além disso, é preciso que o país invista em infraestrutura, substituindo despesas correntes por investimentos, e na criação de um ambiente mais favorável aos negócios, de forma a estimular a atividade empresarial com regras mais estáveis no país.

Outro fator crucial é aumentar a eficiência dos gastos em educação. Segundo Lanzana, o Brasil tem um alto investimento em educação, mas ele é mal administrado pelo poder público. “O desempenho dos alunos brasileiros no PISA mostra a ineficiência dos gastos em educação: numa amostra de 76 países, o Brasil ocupa a 65ª posição em Matemática, a 62ª em Ciências e a 52ª em Leitura”, diz.

Para ele, é importante a criação de currículos condizentes com a rápida evolução da tecnologia, incluindo os avanços da inteligência artificial.

Para evoluir no ranking, é preciso que o país possua uma âncora fiscal e previsibilidade institucional e jurídica. Apesar de a reforma tributária auxiliar nisso, Gabriel Ferraz destaca que é um mecanismo de médio prazo, enquanto educação e pesquisa são ferramentas de longo prazo.

“A reforma tributária é uma dessas medidas, assim como investimentos tecnológicos de integração e de redução da taxa de juros e, por outro lado, destaca-se a importância de buscar maior disciplina das contas públicas”, finaliza o advogado.