A narrativa oficial é sedutora ao comparar a migração energética à troca de operadora de telefonia celular, acenando com reduções de até 20% na conta de luz para pequenos estabelecimentos a partir de 2027 e, para os demais consumidores, em 2028. Quem faz conta na ponta do lápis, no entanto, enxerga um cenário bastante diferente e vê que o diabo mora nos detalhes: a economia proporcionada pelo Mercado Livre está mais estreita, inclusive para consumidores que já podem migrar.
Por que um pequeno comerciante migraria para o ambiente livre por uma economia próxima de 2,5%, se hoje já encontra descontos de 15% a 20% na Geração Distribuída (GD)? Esse público já vem sendo atendido de forma muito mais simples pela GD, por meio da adesão a consórcios ou cooperativas, sem exigir trâmites complexos junto à Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE).
O discurso que a dona Maria entende é o de deixar de pagar duas contas de luz por ano, e não o de gerenciar uma sopa de letrinhas regulatórias e contratos de risco.
O mercado necessitaria, na verdade, de mecanismos ágeis de transição (fast-track) entre comercializadoras, sem que o Estado precise atuar como garantidor. Todo esse movimento ocorre em um momento em que órgãos centrais como a CCEE e o ONS sofrem com a crescente partidarização de cargos estratégicos, enfraquecendo o rigor técnico necessário para gerir a complexidade do sistema.
Enquanto se comemoram decretos de vitrine, as verdadeiras alavancas de eficiência e modernização do setor caminham por outras vias, como a autoprodução e a expansão dos sistemas de armazenamento por baterias (BESS).
A ampliação do mercado para a baixa tensão corre o risco de se tornar uma promessa vazia às vésperas de uma eleição. Quando o entusiasmo dos anúncios passar, a conta da desconexão entre o discurso político e a realidade ficará clara.