Por Marcelo Osakabe
Após um 2024 rodando acima de suas capacidades, a atividade no Brasil deve desacelerar em 2025. Embora o movimento abra brecha para o flerte com discussões sobre “recessão técnica”, sobretudo no segundo semestre, a economia ainda deve ter bom desempenho. Em termos de composição, o PIB também deve se mostrar um provável repeteco de 2023, quando a a agricultura liderou o crescimento.
A nova edição do Boletim Macroeconômico do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) traz a estimativa de 3,5% para o crescimento do PIB em 2024. Se confirmada, será o melhor desempenho desde 2021, quando o PIB saltou 4,8% na saída da crise da covid-19. Para 2025, a estimativa é de desaceleração para 1,8%, número que não sofreu alteração mesmo com um fim de ano mais fraco que o esperado.
“O fim do ano, sobretudo dezembro, surpreendeu para baixo. Esperávamos alta de 0,6% a 0,7% do PIB no quarto trimestre, na comparação trimestral, mas deve ficar mais baixo, perto de 0,5%”, diz a coordenadora do boletim, Silvia Matos.
O importante, diz ela, é olhar a composição desse crescimento e como ele se comportará daqui para a frente. Isso porque a demanda doméstica saltou 5,6% no ano passado, bem acima do desempenho do PIB como um todo e grande responsável pela explosão das importações (14,7%).
“Claro que houve recuperação do investimento (7,3%), que é uma coisa ótima, mas a impressão que fica é que estamos operando acima da capacidade da economia. Prova disso é a inflação, que está em altos níveis e espera-se que se mantenha nesses patamares ainda por um bom tempo.”
Para 2025, a expectativa é que a expansão da demanda doméstica baixe para 1,6%. “Era algo desequilibrado, mas já é possível perceber, nos serviços prestados às famílias e na venda de bens duráveis que o ritmo vem caindo. O aperto da política monetária sobre o crédito e a desaceleração do impulso fiscal devem ajudar a esfriar o consumo”, diz Silvia.
Este ano também deve ser mais parecido com 2023 em termos de quais setores vão liderar o crescimento. Naquela ocasião, agricultura e indústria extrativa, os chamados de setores não cíclicos por serem mais indiferentes a questões como a taxa básica de juros, responderam por mais da metade da expansão de 2,9% do PIB.
Desta vez, o Ibre projeta uma alta de 7,3% para a primeira, na esteira de uma nova supersafra prevista pelo setor. No caso da indústria extrativa, a estimativa é de avanço de 5,1%, ajudada principalmente pela entrada em operação de novas plataformas de petróleo. Com isso, o setor não cíclico deve responder por 1 ponto percentual (p.p.) da alta do PIB, enquanto os setores cíclicos contribuírá com 0,8 p.p.
“Começamos a ver números mais baixos do consumo e também alguma desaceleração do mercado de trabalho, e isso é necessário para baixar essa inflação, principalmente a de serviços”, lembra Silvia. “O esfriamento da atividade é importante para evitar que esse processo inflacionário ganhe ainda mais corpo.”
Um crescimento com destaque para a agricultura pode ainda dar algum alívio à inflação de alimentos, que tem incomodado nos últimos meses e é apontada, inclusive, como uma das causas da queda da aprovação do governo do presidente Lula. No entanto, a perspectiva é para este grupo ainda é de negativa, segundo os economistas André Braz e Matheus Dias.
“Para março, o Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA) sinaliza uma desaceleração na inflação dos alimentos. Na apuração de janeiro, os preços das carnes bovina, suína e de aves registraram queda expressiva, após vários meses de altas consecutivas. Se essa tendência se mantiver, e considerando a recente valorização do real frente ao dólar, é provável que o IPC registre uma desaceleração na inflação dos alimentos”, escrevem. “No entanto, apesar da expectativa de uma safra 10% maior, as projeções para 2025 seguem pessimistas, reforçando a possibilidade de os preços do grupo avançarem mais de 10%, um patamar significativamente superior aos 8,2% registrados em 2024.”
Ainda que não tenham desencadeado uma revisão das projeções para 2025, a fraqueza dos dados de atividade no fim do ano chama atenção, especialmente porque os dados de confiança seguem piorando. O índice de Confiança Empresarial (ICE) do Ibre FGV caiu pela terceira vez consecutiva em janeiro, em 1,8 ponto, e a prévia de fevereiro aponta uma nova queda, de 0,5 ponto, com ajuste sazonal. Já a confiança dos consumidores (ICC) sinaliza certa estabilidade em fevereiro, após tombar 5,1 pontos em janeiro.
“No caso da confiança empresarial, chama atenção o fato de que o índice de situação atual (ISA) também começa a piorar, não apenas as expectativas. Isso sinaliza uma percepção dos empresários de que a demanda realmente já está em ritmo um pouco mais baixo”, diz o economista Rodolpho Tobler, responsável pelos índices de confiança do Ibre. “Já em relação aos consumidores, não dá para comemorar essa estabilidade porque o índice está em patamar mais baixo e também porque consumidores têm relatado uma inflação mais alta e também esperando que ela continue alta.”
A combinação de crescimento mais morno e inflação salgada suscita receios sobre uma recessão técnica (dois trimestres seguidos sem crescimento) ou até uma estagflação – quando existe ao mesmo tempo inflação alta e estagnação econômica. Silvia, no entanto, acha que é exagerado esse debate. “Recessão quando acontece todo mundo sabe. Não é por conta de 0,1 ponto porcentual ou coisa do tipo”, resume. O receio, diz, está na reação do governo à emergência dessas discussões.
O receio é sempre ver o governo “apertar os botões” da economia, pisar no acelerador com medidas de impacto fiscal ou parafiscal, diz Silvia, lembrando de propostas como a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil por mês e o consignado do setor privado.
Ela pondera, por outro lado, que qualquer medida que tenha impacto fiscal, como a aprovação da isenção sem contrapartida de receitas, pode desencadear uma forte piora dos mercados financeiros, um baque na confiança dos agentes e um novo salto do dólar, elevando o esforço requerido em termos de Selic para manter uma trajetória de convergência da inflação.
“Remar contra essa corrente pode ser mais prejudicial para a economia que benéfico.”
Independentemente da reação do governo, o ano não deve ter um resultado tão ruim não apenas pela expectativa do impulso trazido pela agropecuária, que se espraia em outros setores como a agroindústria e os serviços de transporte, mas também por uma série de fatores que continuarão a dar sustentação à atividade, diz.
“Temos um ciclo longo de concessões em infraestrutura que deve continuar apoiando o investimento neste ano, O mercado de trabalho, embora já mostre sinais de desaceleração, continua a ver alta firme dos salários, e as transferências de renda, ainda que não cresçam como nos últimos dois anos, vão continuar sustentando o consumo das famílias.”