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Saneamento
Cidades investem aquém do necessário em saneamento
Levantamento mostra que somente 12 municípios gastam recursos considerados ideais para universalização do serviço
158/07/2025
Valor Econômico

Por Rafael Vazquez

 

A falta de acesso à água potável impacta 16,9% dos brasileiros e 44,8% ainda não possuem coleta de esgoto, conforme mostra a 17 edição do Ranking do Saneamento e elaborado pelo Instituto Trata Brasil (ITB) em parceria com a consultoria GO Associados. Apesar desses números negativos, principalmente em relação à coleta de esgoto, e da meta estabelecida pelo Marco do Saneamento Básico de universalizar o serviço até 2033, apenas 12 municípios dentre os mais populosos investem acima da média considerada necessária para cumprir o prazo.

Esta edição do ranking ressalta que o tratamento de esgoto se destaca como o indicador mais distante da universalização nas cidades, representando o principal desafio a ser superado”, declara a presidente-executiva do Instituto Trata Brasil, Luana Pretto. Para ela, será imprescindível trazer o saneamento para o centro das discussões dos prefeitos e prefeitas em todo Brasil e priorizar o tema nas políticas públicas.

ara produzir o ranqueamento foram levados em consideração os indicadores mais recentes do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (Sinisa), com ano-base de 2023, publicado pelo Ministério das Cidades, além de uma ponderação de pesos na evolução dos indicadores estabelecida em metodologia criada pela GO Associados.

A partir dessa metodologia, Campinas, no interior de São Paulo, foi a primeira colocada, seguida por Limeira, também no interior paulista, e Niterói, na região metropolitana do Rio de Janeiro. Já nas três piores colocações estão três cidades da região norte, sendo duas capitais: Macapá, Porto Velho e Santarém, Pará.

Dos 20 melhores municípios classificados no ranking de 2025, nove são de São Paulo, cinco são do Paraná, três de Minas Gerais, dois de Goiás e um é do Rio de Janeiro. Entre os 20 piores, quatro são do Rio de Janeiro, quatro de Pernambuco e três do Pará. Ao olhar para as regiões, das cidades restantes, quatro pertencem à macrorregião Norte, três situam-se na macrorregião Nordeste, uma no Centro-Oeste e uma no Sudeste.

Outro fato destacado entre os 20 piores municípios ranqueados em 2025 é que 8 são capitais: Recife, Maceió, Manaus, São Luís, Belém, Rio Branco, Macapá e Porto Velho.

“O Ranking do Saneamento de 2025 continua a refletir as desigualdades regionais do Brasil também no acesso ao saneamento. Enquanto preponderam nas 20 primeiras posições municípios localizados nas regiões Sudeste, Centro-Oeste e Sul do país, as 20 últimas são majoritariamente compostas por municípios das regiões Norte e Nordeste”, analisa o sócio-executivo da GO Associados, Gesner Oliveira.

Gesner aponta que o investimento médio por habitante nos 20 municípios mais mal colocados é de apenas R$ 78,40, quase um terço do que o necessário para a universalização dos serviços de água e esgoto até 2033. “É fundamental que os investimentos que permitem a evolução dos principais indicadores de acesso à água e coleta e tratamento de esgoto seja m ainda mais intensos nestas regiões”, diz.

Conforme observa o estudo, existe uma relação positiva entre o volume de investimentos e os avanços nos indicadores de saneamento básico. Um indicador notável neste sentido é justamente o Investimento Médio por Habitante, que permite a comparação entre os grupos dos 20 melhores e dos 20 piores com base na distância relativa dos níveis de investimentos em relação ao valor de R$ 223,82 por habitante estabelecido pelo Plano Nacional de Saneamento Básico (Plansab) como o ideal a ser conduzido para a universalização do saneamento nos municípios.

Nos 20 melhores municípios, o investimento anual médio no período de 2019 a 2023 foi de R$ 176,39 por habitante. Portanto, cerca de 20% abaixo do patamar médio necessário para a universalização. Porém, como muitos desses municípios já possuem indicadores em estágios mais avançados de desenvolvimento ou universalizados, é mais aceitável que apresentem valores abaixo da média nacional sem comprometer o atendimento às metas do Novo Marco Legal do Saneamento Básico.

Por outro lado, os 20 piores municípios tiveram um investimento anual médio no período de 2019 a 2023 de R$ 78,40 por habitante, cerca de 65% abaixo do patamar médio necessário para a universalização. Segundo o relatório, no caso desses municípios, por terem indicadores muito atrasados e distantes da universalização, ter um investimento anual médio por habitante baixo significa que a tomada de decisão municipal em benefício do saneamento é urgente.

Para a presidente-executiva do Instituto Trata Brasil, os dados dão a dimensão real do problema nos municípios brasileiros e possibilita o fortalecimento do debate sobre a importância do saneamento básico em meio à realização COP30, que será realizada em novembro em Belém, no Pará, um dos Estados com os piores índices de saneamento básico do país.

“Como país-sede de um dos maiores eventos de sustentabilidade do mundo, a COP30, se abre como oportunidade para que sejam discutidos profundamente os temas de água e saneamento, a fim de que se encaminhem soluções coletivas que vão de encontro à universalização dos serviços no menor tempo possível”, diz.