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Menos da metade das escolas tem bibliotecas
Situação contribui para baixo índice de leitura do brasileiro e mudança favoreceria reversão de outros fatores ligados à falta de cultura leitora do país, afirmam especialistas
22/07/2025
Valor Econômico

Por Alex Jorge Braga

 

Apenas 49,4% das unidades escolares possuem essa estrutura. Na comparação com 2023, a taxa cresceu 1%. Essa realidade é uma das principais barreiras para o aumento de leitores, aponta a sexta edição da pesquisa “Retratos da Leitura”, realizada pelo Instituto Pró-Livro, em parceria com a Fundação Itaú.

Para a superintendente do Itaú Social, Patricia Mota Guedes, os quatro principais motivos para o brasileiro não ler frequentemente estão associados à ausência de cultura leitora. Só o quinto é relacionada à infraestrutura, “caso avancemos nessa última, as demais serão impactadas consequentemente”, diz.

Segundo Guedes, a educação básica é um momento importante para se adquirir o gosto pela leitura, pois “se na juventude há a descoberta do prazer de ler, essa prática extrapola o ambiente escolar e acompanha toda a vida da pessoa”, diz. “Entendemos que há habilidades que só a leitura nos fornece. Daí a importância das bibliotecas para uma melhor preparação dos alunos aos desafios profissionais da atualidade e ao aperfeiçoamento do exercício da cidadania.”

Para Ana Paula Yazbek, diretora do espaço ekoa e mestre em educação pela USP, uma escola sem biblioteca comunica – de forma silenciosa, mas clara – que a leitura não ocupa um lugar importante. A instituição, em sua visão, passa a mensagem para os estudantes e a comunidade de que a literatura não é necessária nem merece estar no centro do projeto pedagógico. Yazbek afirma que não é preciso imaginar bibliotecas grandiosas, mas todo ambiente escolar precisa ter espaços onde os livros sejam cuidados, valorizados, acessíveis e convidativos.

“Quando isso não existe, os estudantes são privados de algo essencial: a chance de viver outras experiências, acessar novos mundos, refletir sobre medos, desejos e sentimentos em segurança”, diz.

A gerente de Advocacy do Instituto Ayrton Senna, Silvia Lima, afirma que bibliotecas colaboram no desenvolvimento de diversas habilidades do estudante, como na melhora da aprendizagem, na ampliação de vocabulário, no desenvolvimento de competências relacionadas à pesquisa e no maior domínio das diversas linguagens.

“Atualmente, percebemos que as informações obtidas pelas redes sociais, que são abundantemente consumidas pelas crianças e jovens, são fragmentadas e não possibilitam o desenvolvimento de múltiplas competências”, diz. “Os livros, com sua narrativa ampla, viabilizam o desenvolvimento de criticidade, correlações e inferências.”

 

Patricia Guedes reconhece a importância da biblioteca, mas, em sua análise, somente a construção do espaço não basta para estimular de forma potente a leitura. É necessário, em alguns momentos, a saída do aluno de seu território para outros lugares de convivência, como as feiras literárias. “Esses encontros conectam e engajam os leitores.”

A edição atual da pesquisa “Retratos da Leitura” mostra que apenas 8% dos entrevistados participam de eventos literários. Já entre leitores de ficção, esse número sobe para 18%. A pesquisa revela que 53% da população brasileira não tem o hábito frequente de leitura. Esta é a primeira vez, desde 2007, que o número de não leitores é superior ao de leitores. De acordo com o estudo, é considerado leitor quem leu no todo ou em parte pelo menos um livro de qualquer gênero, impresso ou digital, nos últimos três meses.

Para Guedes, o baixo percentual de leitores no Brasil se explica em partes pela “crença” de que a prática se restringe a alguns. “Esse pensamento é uma armadilha que ocorre no ambiente escolar e precisa ser enfrentado, pois o estudante cria, desde cedo, resistência à leitura.”