Por Sergio Lamucci
A economia brasileira teve uma desaceleração forte no segundo trimestre, puxada pelo recuo da agropecuária, do lado da oferta, e do investimento, do lado da demanda. O PIB cresceu 0,4% em relação ao trimestre anterior, próximo ao consenso do mercado, de 0,3%, depois de ter avançado 1,3% nos três primeiros meses do ano. A agropecuária, que liderou a expansão no primeiro trimestre, com alta de 12,3%, recuou 0,1% no período de abril a junho, um desempenho bem mais fraco, mas superior ao que esperavam os analistas – o consenso dos economistas ouvidos pelo Valor apontava para uma retração de 1,7% ante o trimestre anterior, e na verdade o setor ficou quase estável. Já o investimento caiu 2,2%, depois de uma série de seis altas consecutivas na comparação com o trimestre imediatamente anterior, feito o ajuste sazonal.
Os juros elevados também contribuíram para a perda de fôlego da economia, o que aparece mais claramente no desempenho do investimento e também no consumo das famílias – o principal componente do PIB pelo lado da demanda cresceu 0,5%, após avançar 1% no trimestre anterior. O consumo do governo também desacelerou significativamente. De estabilidade no primeiro trimestre, o indicador mostrou queda no segundo.
Com isso, a demanda doméstica final (a combinação do consumo das famílias, do consumo do governo e do investimento, excluindo a variação de estoques) recuou 0,2% no período, nas contas do diretor de pesquisa para a América Latina do Goldman Sachs, Alberto Ramos. No primeiro trimestre, esse indicador havia crescido 1,2%.
A demanda interna mais fraca se traduziu em importações menores. As compras externas caíram 2,9% em relação ao primeiro trimestre. Como as exportações cresceram 0,7% nessa base de comparação, o setor externo teve contribuição positiva para o PIB no período, de 0,7 ponto percentual, nas estimativas de Ramos.
Pelo lado da oferta, o destaque positivo foi mais uma vez os serviços, com alta de 0,6%, uma aceleração em relação ao 0,4% do primeiro trimestre. Entre os setores de serviços, o principal destaque ficou com as atividades financeiras, com alta de 2,1%. Outros segmentos com expansão foram o de informação e comunicação (1,2%), transportes (1%) e outros serviços (0,7%), que englobam os serviços prestados a famílias, por exemplo.
A indústria também teve um resultado positivo, com alta de 0,5%, puxada pela forte expansão do setor extrativo, de 5,4%. O setor de transformação recuou 0,5%, enquanto a construção civil teve queda de 0,2%, segmentos em que o juro elevado tem impacto mais negativo. Ainda entre as atividades industriais, o setor de eletricidade, gás água e esgoto caiu 2,7%.
A taxa de investimento ficou em 16,8% do PIB no segundo trimestre, próxima dos 16,6% do PIB registrados no mesmo período de 2024. É um número muito baixo, que indica a dificuldade do país de crescer a taxas mais altas de modo sustentado. A taxa de poupança, por sua vez, também atingiu 16,8% do PIB, acima dos 16,2% do PIB do segundo trimestre do ano passado. É outro indicador ruim. Com poupança baixa, há dificuldade para financiar o investimento.
O crescimento do PIB de 0,4% no segundo trimestre confirma a desaceleração da economia. Isso era esperado num cenário em que a agropecuária não teria como repetir o desempenho exuberante do primeiro trimestre e em que os juros nas alturas tirariam fôlego da demanda interna. Para o resultado do ano, a expectativa para o PIB não deve sofrer grandes mudanças – o consenso dos analistas ouvidos pelo Valor é de alta de 2,2%. É uma desaceleração considerável em relação aos 3,4% de 2024, mas natural após o ciclo de alta da Selic, hoje em 15% ao ano. O mercado de trabalho ainda segue forte, o que dá fôlego ao consumo das famílias e aos serviços. É nos serviços que a inflação ainda se mostra pressionada, e pode retardar o começo do ciclo de queda da Selic. Nos próximos trimestres, contudo, a expectativa é de uma expansão também mais fraca da atividade, que poderá permitir uma queda dos juros no fim deste ano ou no começo do próximo. O tarifaço de Donald Trump produz alguma ajuda nesse front, com o aumento da oferta de alguns produtos no mercado interno. Do ponto de vista da atividade, as exportações menores para os EUA deverão tirar algo como 0,2 ponto percentual do crescimento em 12 meses. Não é uma boa notícia, mas não deverá ser suficiente para o crescimento de 2025 ficar abaixo de 2%.