O brasileiro José Alexandre Scheinkman, economista de prestígio internacional que foi professor da Universidade de Chicago, Princeton e agora está em Columbia, tem dedicado a maior parte do tempo a estudar ideias econômicas para enfrentar a crise climática. “Temos que chegar ao net zero, as emissões líquidas zero, em uns 20 anos, ou a briga estará perdida.”
Há alguns meses, a pedido de Andre Corrêa do Lago, presidente da COP30, juntou um grupo de economistas do mais alto nível em um conselho para sugerir ideias ao diplomata. Corrêa do Lago e o presidente da COP 29, Mukhtar Babayev, têm que apresentar um relatório sobre o caminho para que o mundo encontre recursos da ordem de US$ 1,3 trilhão, ao ano, para os países enfrentarem a crise.
Se essas ideias irão voar ou não, é impossível prever. Este grupo de economistas irá submetê-las até 10 de setembro à UNFCCC, a Convenção do Clima da ONU. Ali se juntarão a submissões de países, entidades e organizações da sociedade civil global e podem, ou não, ser incorporadas ao relatório dos presidentes da COP29 e da COP30.
Na semana passada, durante visita ao Insper, em São Paulo, convidado a participar da Comissão Externa de Avaliação (especialistas que se reúnem anualmente para analisar e orientar os rumos da escola), Scheinkman falou ao Valor sobre o grupo estelar de economistas que juntou (alguns citados abaixo) e suas ideias inovadoras para que a economia possa responder aos desafios da emergência. Listou seis projetos – quatro ligados à ideia de se reduzir as emissões de gases-estufa no mundo e chegar, o mais rápido possível ao net-zero, e dois, à justiça climática. A seguir, trechos da entrevista:
Uma pizza em NY
Há alguns anos, a convite de João Moreira Salles, fui a uma conferência na Universidade de Princeton. Eu já havia mudado para Columbia. O evento discutiu questões sobre a Amazônia com foco em clima, economia e outros tópicos. Fiquei super interessado. Conhecia a questão climática, mas nunca tinha pensado, em particular, na Amazônia e nas florestas tropicais. Na volta, fomos comer uma pizza. Juntaram-se a nós Beto Veríssimo [cofundador e pesquisador sênior do Imazon e especialista em Amazônia] e Juliano Assunção [economista, diretor-executivo do Climate Policy Initiative e especialista no elo entre clima, economia e florestas]. Alguém deu a ideia de formarmos um grupo de gente interessada em pensar soluções. Depois disso, comecei a participar de discussões climáticas.
Entendi que havia uma questão importante de ciência econômica que a gente não entendia. Era um desafio técnico, de calcular o valor econômico da floresta. Calcular, dado um preço de carbono, quanto o Brasil deveria ter de gado, quanto deveria restaurar ou cortar a floresta. Ou seja, quais eram as opções econômicas da floresta, de uma maneira formal.
Florestas
Tenho uma relação antiga com o Lars Hansen [economista americano que venceu o Nobel de Economia em 2013]. Liguei para ele e falei: “Esse é um problema difícil e importante, a gente poderia fazer alguma coisa”. Lars já tinha feito algo em clima, mas nada com floresta. Começamos a trabalhar Juliano, Lars e eu. E aí aconteceu o meu envolvimento como economista. Passei a dedicar quase todo o meu tempo à questão climática.
O grupo
André [Corrêa do Lago] um dia me perguntou se eu gostaria de reunir um grupo de economistas de primeira linha para dar sugestões a ele. Chamei pessoas do mais alto nível da comunidade mundial. Há também pessoas que os ministérios da Fazenda e das Relações Exteriores sugeriram e outras que André escolheu.
Trouxe para o grupo o Juliano Assunção, que tem um nível internacional altíssimo e estuda florestas; o Lars Hansen, a Esther Duflo [economista francesa que ganhou o Nobel em 2019 e é professora do Massachusetts Institute of Technology, o MIT], Patrick Bolton, que é o líder na economia do clima e hoje professor do Imperial College; a Rohini Pande, jovem professora em Yale; a Catherine Wolfram, professora no MIT; e Harrison Hong, meu colega em Columbia e que trabalha há muito tempo com desastres climáticos. Há muitos outros colaborando, mas esses formam o coração do grupo. Cada um deles encarregado de algo.
A ideia
A questão das emissões é uma questão global. Uma unidade de gás-estufa emitida na Rússia, na África do Sul ou no Brasil, tem exatamente o mesmo impacto. A física é essa. Por isso é importante, quando pensamos no problema, pensar de uma maneira global. E tem que se procurar as melhores oportunidades para diminuir as emissões ou capturar carbono.
Essas oportunidades são diferentes. Na Europa, uma cota de uma tonelada de carbono estava custando US$ 85. Uma empresa europeia pode fazer duas coisas [para cortar emissões]: ou paga os US$ 85, ou faz um esforço e gasta o equivalente a quase US$ 85. Se puder fazer por US$ 80, fará ela mesma, diminuindo suas emissões em vez de comprar uma cota por US$ 85. Mas se este esforço custar US$ 90, a empresa irá preferir comprar uma cota de US$ 85. Em linguagem de economista, o custo marginal é US$ 85 por tonelada.
Então, gasta-se US$ 85 na Europa para não emitir uma tonelada de carbono. Na Amazônia, se poderia, através do reflorestamento, capturar três toneladas de carbono por esse preço.
Um mercado global de carbono
Não faz sentido fazer uma coisa só na Europa. Se a Europa conseguir chegar ao que a gente chama de net zero, o zero líquido [em emissões de gases-estufa], mas os países emergentes continuarem na trajetória em que estão de emissões crescentes, não vai adiantar nada. Isso tem que ser pensado de uma maneira global. E a única maneira é fazer como os europeus fizeram entre eles: criar um mercado global [de créditos de carbono] no qual se possa transacionar.
Agência global de certificação
Para um mercado global, precisamos de coisas que não existem hoje em dia. Como é que se certifica que uma tonelada de carbono foi emitida ou que uma tonelada foi capturada, na Amazônia ou em serviços de captura e sequestro de carbono? Tem que se formar uma agência global de certificação. Como se desenha um mercado desse? A Rohini Pande reuniu um grande grupo de economistas e se encarregou disso. O segundo problema é como é que se faz contratos que evitem riscos. Tem que ter um sistema de verificação, tem que se evitar dupla contagem.
Coalizões de carbono
Nós, no grupo, estamos pensando como é que se desenha uma coalizão de carbono efetiva. É o campo da Catherine Wolfram. Qual é o preço que essa coalizão de carbono poderia colocar, tanto para o carbono emitido nas economias que se juntassem, como um custo mínimo para o carbono emitido fora dela. O CBAM é o nome que os europeus deram para o Mecanismo de Ajuste de Fronteira de Carbono. Nós estamos usando CBA, Carbon Border Adjustment. mas é a mesma coisa.
O preço poderia ser, talvez, graduado. Ou seja, pode-se fazer como os europeus, que dão uma cota para todo mundo e depois ajudam, dando cotas adicionais para os países menos prósperos na UE, ou poderia se usar um sistema de preços diferenciados. Estamos fazendo estes exercícios. Seria racional ter um preço de US$ 75 para os países ricos e um preço mais barato para os menos ricos.
Primeira etapa: net zero
Temos que chegar no que a gente chama de net zero. Ou seja: podemos estar emitindo algo desde que se capture aquela mesma quantidade. E é aí que os mercados são muito importantes.
As COPs trabalham na base das NDCs, as National Determined Contributions [os compromissos climáticos dos países]. Sabemos que, hoje em dia, se todos cumprirem as NDCs, o mundo vai esquentar, uns 2,7° C. Isso é muito ruim. Ninguém sabe o que vai acontecer com 2,7 ° C. É um risco que não podemos correr. Então, por volta de 2035 a 2050, temos que chegar no tal do net zero. Se a gente não chegar lá em um tempo relativamente breve, uns 20 anos, acho que a briga está perdida. Os dados mostram isso.
Ficar barato
O mercado, de certa maneira, ajuda muito. Quando o europeu perceber como é barato capturar carbono em florestas tropicais e com os países tropicais adotando estratégias de reflorestamento, nesse momento, evidentemente, o dinheiro poderá fluir.
Descarbonizar energia
Patrick Bolton está olhando só para o setor de produção de energia, que, dependendo do país, responde por 40 ou 50% das emissões totais. Calculou quanto custaria, para todos os países emergentes e os mais pobres, descarbonizar completamente esse setor.
Quando se quer descarbonizar um país tem que se eliminar as fontes de energia que dependem de carvão, petróleo e gás e aposentar essas unidades. Isso custa dinheiro, tem que se compensar os donos, os trabalhadores, etc. Bolton fez todos esses cálculos.
Considerou algumas hipóteses sobre quanto os países ricos teriam que ajudar os outros. Há duas fontes para isso, através de bancos multilaterais e doações diretas, e a outra seria financiamento. Além disso é preciso construir usinas limpas. Ele adicionou o custo de todas as usinas limpas até para acomodar o crescimento dos países, cruzou com as matrizes energéticas e quando se agrega tudo, dá um número que não é absurdo. Se se pensa em implementar um programa desse até 2035, que são dez anos, dá US$ 100 bilhoes e pouco ao ano. Menos de 10% daquele US$ 1,3 trilhão estimado, ao ano. E os países conseguiriam também atrair capital privado porque as novas usinas vão produzir energia. Bolton estima que os países só precisariam contribuir com 25% do custo, e os outros 75% seriam financiados pelo mercado.
Ajuda aos mais pobres
Harrison Hong está calculando o custo dos desastres climáticos para os países mais pobres, sobre os quais eles não têm nenhuma culpa. São custos enormes. Atualmente os imigrantes daquele país mandam dinheiro para ajudar. Para alguns países essas remessas representam 6% do PIB. Os EUA querem colocar um imposto nessas remessas, a Arábia Saudita, também. Seria um desastre. É preciso fazer o contrário: não taxar e deixar as remessas mais baratas.
Há um segundo ponto que o projeto do Harrison puxa: quando há um desastre climático, a situação de crédito destes países, que já têm muita dívida, fica pior, eles perdem a capacidade de pagar. Poderia se pensar em “debt for climate adjustment”. Esse país teria que assumir a responsabilidade de diminuir mais as emissões, e assim se perdoar um pedaço da sua dívida. Teriam que colocar um preço para o carbono que poderia, por exemplo, incentivar a trocar motores a óleo diesel por energias limpas.
Compensação automática
E a Esther Duflo, que lidera um grupo formidável, está pensando em maneiras de organizar uma compensação automática para os países mais pobres, que não emitiram e não têm nenhuma responsabilidade na crise, em situações que sofrem um desastre climático ou a temperatura aumenta tanto que causa muito problema. Uma maneira em que os países mais ricos se comprometam a ajudar as pessoas nessas economias através de um sistema parecido com o Bolsa Família, mas que leve a pagamentos, não o ano inteiro, mas na ocasião de desastres. Para que as pessoas e as comunidades consigam sair desse momento agudo.
Mesmo que a gente chegue à trajetória net zero em breve, os desastres climáticos vão acontecer, serão mais graves e irão acontecer com maior frequência. E esses países são menos equipados a lidar com esse quadro.