Por Victoria Netto e Camila Zarur e Paula Martini
Um mix de recursos internacionais e nacionais voltados para acelerar a adaptação climática de cidades brasileiras foi anunciado nesta quarta-feira (5), último dia do Fórum Global de Líderes Locais, no Rio de Janeiro. O evento é vinculado à agenda oficial da COP30, em Belém. As iniciativas, realizadas em parceria entre o governo federal, setor privado e organizações filantrópicas, reforçam o papel das cidades na linha de frente do enfrentamento à crise climática, de acordo com autoridades.
Entre as medidas anunciadas, está o aporte de € 80 milhões (cerca de R$ 496 milhões) em um fundo para eletrificar frotas de ônibus e impulsionar o transporte público “verde” em municípios do Brasil, em uma parceria entre a Bloomberg Philantropies, BTG Pactual, World Resources Institute (WRI) e ministérios do Meio Ambiente e das Cidades.
A Bloomberg Philanthropies, entidade filantrópica e responsável pelo evento na capital fluminense, também anunciou uma doação de US$ 168 milhões (R$ 900 milhões) para financiar soluções locais de resiliência no mundo todo, com parte do recurso destinado ao desenvolvimento de projetos em 50 cidades brasileiras até 2027. O montante direcionado ao Brasil não foi especificado.
Para Michael Bloomberg, enviado especial da ONU para Ambição e Soluções Climáticas, prefeitos e governadores estão mostrando ao mundo que cidades e Estados podem liderar o combate às mudanças climáticas.
“Este investimento vai abrir novas oportunidades, no Brasil e em todo o mundo, à medida que colabora com governos nacionais, amplia soluções comprovadas e orientadas por dados para reduzir emissões e constrói um mundo mais forte e mais saudável”, disse em participação por vídeo.
A cifra anunciada faz parte dos US$ 770 milhões já comprometidos pela Bloomberg Philanthropies para medidas de enfrentamento às mudanças climáticas.
O Fundo de Melhoria de Crédito para Ônibus Elétricos do Brasil, por sua vez, busca reduzir o risco de investidores ao disponibilizar empréstimos acessíveis para operadores de ônibus.
Ao longo de seis anos, a intenção é liberar cerca de € 450 milhões (R$ 2,8 bilhões) em empréstimos privados para implantar mais de 1,7 mil novos ônibus com zero emissões de gases de efeito estufa, além de infraestrutura de recarga. Isso significa mais do que triplicar a frota brasileira atual.
Para o ministro das Cidades do Brasil, Jader Filho, o fundo demonstra que a agenda urbana é fundamental para as metas climáticas e para impulsionar medidas de mitigação, adaptação e resiliência: “Ao promover a mobilidade sustentável e um desenvolvimento urbano mais equitativo, estamos fortalecendo a capacidade de responder à crise climática e de melhorar a vida das pessoas.”
No evento, Jader Filho afirmou que enfrentar a crise climática exige cuidar do ambiente e das cidades, já que é nelas que vive a maior parte da população e se concentram 80% das emissões. Ele destacou a necessidade de reduzir impactos e fortalecer a adaptação urbana, lembrando tragédias como as enchentes no Rio Grande do Sul e os desabamentos de Petrópolis (RJ), e defendeu que prefeitos e governadores sejam ouvidos nas decisões globais sobre o clima.
O prefeito do Rio, Eduardo Paes, afirmou que a cidade será uma das contempladas pelos recursos disponibilizados. “São iniciativas como esta que viabilizam projetos nas cidades brasileiras para que a gente possa trocar essa frota”, disse.
Paes também destacou que o Brasil tem estrutura que favorece a colaboração entre os diferentes níveis de governo, permitindo aproveitar melhor recursos para projetos urbanos e climáticos. Mas observou que, quando não há recursos suficientes, as cidades precisam de parcerias para implementar iniciativas sustentáveis. “A cidade tem uma capacidade enorme de implementação”, afirmou.
Também no último dia do evento, o empresário e Campeão Climático da COP30, Dan Ioschpe, destacou o papel de vanguarda dos governos locais em inovação e entrega de resultados relacionados a metas climáticas, e destacou a incorporação desses líderes na execução desses objetivos. “Estamos entrando em uma nova era de COPs, definida por implementação e impacto. Por meio da Coalizão Mutirão, o Brasil está incorporando a liderança subnacional diretamente nos compromissos climáticos nacionais”, afirmou.
Segundo Ioschpe, isso significa que a ação climática não está mais confinada a um único nível de governo: “É uma responsabilidade compartilhada”.
Simon Stiell, secretário-executivo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), segue a mesma linha: “Cidades, Estados e regiões são onde a ação climática global se encontra com a vida cotidiana, onde a inspiração pode ser encontrada em cada esquina e onde grandes soluções ganham forma”, disse. “A liderança climática local é fundamental para alcançar comunidades mais saudáveis e prósperas, bem como economias mais fortes”, completou.
Valor Econômico (digitado)