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Economia
IPCA mantém dinâmica positiva com ajuda de alimentos, dizem economistas
12/11/2025
Valor Econômico

Por Marcelo Osakabe e Lucianne Carneiro

A mudança de bandeira tarifária de energia e mais controlados de alimentos e de bens duráveis levaram à menor inflação para um mês de outubro desde 1998 e mantiveram dinâmica positiva do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), afirmam economistas, que veem nos dados mais recentes mais um sinal de que a política monetária do Banco Central está funcionando.

A leitura também disparou algumas revisões marginais de projeção para 2025: o ABC Brasil passou de 4,5% para 4,4%. AZ Quest e G5 Partners baixaram suas estimativas de 4,6% para 4,5% e a Oxford Economics mudou a sua de 4,7% para 4,6%.

No mês passado, o inflação oficial brasileira subiu 0,09%, após alta de 0,48% em setembro. É a menor leitura para outubro desde 1998, quando marcou 0,02%, e também ficou abaixo do piso das projeções coletadas pelo Valor Data, que variavam entre 0,10% a 0,21% e tinha mediana em 0,14%.

Em 12 meses, o IPCA acumula alta de 4,68%, de 5,17% em setembro. Já no acumulado de 2025, o avanço é de 3,73%.

Apenas três das nove classes pesquisadas apresentaram aceleração dos preços: Alimentação e bebidas (de -0,26% para 0,01%); transportes (de 0,01% para 0,11%); e saúde e cuidados pessoais (de 0,17% para 0,41%).

Na outra ponta, habitação (de 2,97% para -0,30%); vestuário (de 0,63% para 0,51%); despesas pessoais (de 0,51% para 0,45%); e educação (de 0,07% para 0,06%) inverteram a contribuição na virada de setembro para outubro. Também tiveram contribuição negativa, porém menor que no mês anterior, aparecem artigos de residência (de -0,40% para -0,34%); e comunicação (de -0,17% para -0,16%).

Energia foi o principal item a pressionar para baixo no IPCA de outubro, com influência de -0,10 ponto percentual (p.p.). Descontada essa influência, o índice teria registrado alta de 0,20%.

De acordo com o IBGE, a queda no preço refletiu a mudança da bandeira tarifária vermelha patamar 2, que estava vigente em setembro, para a bandeira vermelha patamar 1. No patamar 2, o valor adicional na conta de luz é de R$ 7,87 a cada 100 Kwh consumidos, enquanto no patamar 1 é de R$ 4,46.

Embora a energia elétrica tenha sido destaque, houve surpresas positivas em diferentes grupos pesquisados, nota o economista do banco ABC Brasil Francisco Lima Filho.

De fato, a média móvel de três meses dessazonalizada e anualizada de três métricas – a média dos 5 núcleos, dos serviços subjacentes e dos industriais subjacentes passaram todos a operar dentro da banda da meta perseguida pelo Banco Central: 3,6%, 2,6% e 4,1%, respectivamente. Serviços era o último grupo que seguia fora desse intervalo e também teve queda firme, de 0,5 ponto porcentual.

“Foi uma melhora generalizada”, diz Lima, que destaca o bom comportamento dos preços de aparelhos eletrônicos continua comportado, refletindo a deflação exportada da China e também o câmbio – cenário que deve permanecer no curto prazo por causa dos descontos da Black Friday -, mas também deflação sequencial do item seguros de veículos, que segue ajudando a melhorar o desempenho dos serviços.

Um destaque do dado de outubro foram os preços de alimentos. A alimentação no domicílio caiu 0,16%, em meio a quedas como a do arroz (-2,49%) e leite longa vida (-1,88%). Batata-inglesa (8,56%) e óleo de soja (4,64%) estão entre os destaques altistas.

“Esperava-se que o grupo voltasse ao campo positivo. Em geral, o último trimestre do ano é de sazonalidade altista. Só que acabou acontecendo o contrário”, diz Julio Cesar de Mello Barros, economista do Daycoval. “Mesmo os preços das carnes seguiram acomodados, contrariando a nossa expectativa de alta mais forte.”

Segundo Lima, parte importante o viés baixista dos alimentos vem de cereais como arroz, feijão e milho, que se beneficiam de safras positivas. Os preços de arroz, por exemplo estão em queda desde outubro do ano passado, diz o que acaba influenciando também o feijão.

“No início de 2025, discutíamos se a inflação de alimentos terminaria o ano em 8% ou talvez mais. Hoje, vemos que ela deve terminar em 3%”, ressalta.

A XP Investimentos também destaca a melhora das métricas de núcleo, mas pondera que nem tudo foi para melhor. Embora os serviços subjacentes tenham recuado na métrica trimestral anualizada e sazonalizada, 4,8% para 4,4%, os intensivos em mão de obra – monitorados de perto pelo Banco Central – subiram 0,57% no outubro e levaram a média móvel a acelerar de 6,2% para 7,3%.

“Embora reconheçamos alguma melhora na margem, vemos espaço limitado para a convergência da inflação de serviços à meta, uma vez que o custo unitário do trabalho segue em trajetória ascendente e a taxa de desemprego permanece em patamares historicamente baixos”, escreve o economista da corretora, Alexandre Maluf.

Ele alerta ainda que a leitura benigna de alimentação deve ser revertida adiante, em meio a altas em proteínas, café, óleo de soja e alimentos in natura.

Segundo Fernando Gonçalves, gerente do IBGE responsável pelo IPCA, alguns serviços ainda podem registrar pressão de demanda, diante do aumento da renda e do aquecimento do mercado de trabalho que o país vive.

“Em alguns itens pode ter pressão de demanda, outros de custos. No caso de alimentação fora do domicílio, pode ter alguma influência de reajuste salarial. Em passagem aérea, apesar de o feriado de 12 de outubro ter caído no fim de semana, ainda pode ter ocorrido algum deslocamento de pessoas”, disse.

A alta de preços de alimentação fora do domicílio acelerou de 0,11% em setembro para 0,46% em outubro, enquanto o preço de passagens aéreas passou de queda de 2,83% em setembro para alta de 4,48% em outubro.

Em termos de política monetária, o dado traz mais confiança de que a postura do Banco Central tem rendido frutos no combate à inflação, diz Lima, do ABC Brasil. Tínhamos uma projeção de primeiro corte em junho, mas agora antecipamos para março. O mercado, acredito, deverá continuar discutindo se ela ocorrerá em janeiro ou março, mas está mais claro que a decisão ficará dentro do primeiro trimestre”, diz.