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Desaceleração da economia brasileira acende alerta no mercado e no governo
Mesmo com receita recorde, o governo brasileiro enfrenta gigantesco desafio de controlar despesas e preservar a âncora fiscal em meio a desaceleração econômica.
26/12/2025
A Revista / Valor Econômico

O Brasil vive um momento paradoxo: o volume de arrecadação federal encontra-se em patamar elevado, impulsionado por receitas fiscais robustas e emprego ainda relativamente aquecido. Contudo, para a economista-chefe da Lifetime Investimentos, Marcela Kawauti, esse cenário não resolve os graves desequilíbrios fiscais que o país acumula. Segundo ela, “o aumento da arrecadação… faz parte do trabalho em fazer o equilíbrio das contas públicas. Agora… é uma ajuda de curtíssimo prazo.”
O cerne do problema está no crescimento persistente dos gastos públicos — especialmente primários — e na falta de cortes substanciais que permitam que as despesas terminem os meses no azul. Em outras palavras: mesmo com ingresso maior de receitas, a trajetória de saída de recursos segue ascendente, reduzindo o espaço de manobra para estabilização.

O ciclo econômico vira contra e a arrecadação perde fôlego

Outro ponto de alerta destacado por Marcela Kawauti é a desaceleração que se avizinha na economia brasileira. O índice de atividade econômica, como o IBC‑Br, já sinaliza uma perda de ritmo. A expectativa do mercado para o crescimento do PIB gira em torno de 2,2 % para este ano e de cerca de 1,8 % para 2026 — indicadores que remetem a uma arrecadação que poderá enfraquecer ao longo do tempo.
Diante disso, o governo não pode contar indefinidamente com receitas elevadas como “solução permanente”. A pressão sobre as contas públicas se agrava quando a atividade desacelera, o emprego perde ritmo e, com isso, contribuições previdenciárias e impostos tendem a reagir negativamente.

Regras fiscais sob ameaça: gastos fora da meta e fragilidade da âncora

No campo institucional, surge um capítulo ainda mais preocupante: a flexibilização das chamadas regras fiscais. Recentemente, o Senado Federal aprovou autorização para que as Forças Armadas Brasileiras realizem investimentos bilionários (aproximadamente R$ 5 bi anuais ao longo de seis anos) “fora da meta” orçamentária — ou seja, além dos limites originalmente estabelecidos para controle de gastos.
Para a economista da Lifetime, esse tipo de decisão mina o que deveria funcionar como “âncora” para a política fiscal: uma regra clara de limites de gastos que oriente o mercado e o país sobre o rumo das contas públicas. “Quando o governo faz tentativas de sair da meta… deixa de funcionar como um norte no médio e longo prazo das contas públicas no Brasil.”
Essa fragilização da regra coloca em xeque o objetivo de convergência fiscal — ou seja, obter superávit primário ou ao menos controle claro das despesas em relação às receitas.

Ano eleitoral, gasto mais forte e juros sob pressão

O ano que vem, marcado por eleições federais, reforça o grau de incerteza. Historicamente, governos (federal e estaduais) aumentam subsídios, gastos com consumo ou crédito, e promocionam políticas de estímulo que elevam a pressão fiscal. A economista enfatiza que este tipo de “incentivo fiscal” não é novo e se soma aos gastos obrigatórios em ascensão — o que torna o desafio das contas públicas ainda maior no médio prazo.
A consequência desse cenário: para monitorar os efeitos, o Banco Central do Brasil pode acabar postergando cortes de juros ou promovendo reduções mais tímidas. A política monetária, que tende a agir para desacelerar a economia, acaba tendo de conviver com uma política fiscal expansionista — ou seja: lado a lado, o fiscal impulsiona e o monetário freia. Essa “concorrência” reduz o espaço para queda rápida de juros.

Indicadores de mercado já mostram desconforto e são termômetros da incerteza

Para o investidor atento, alguns sinais de alerta já se acendem:

  • A curva de juros futuros está mais elevada, refletindo aumento de risco pelo lado fiscal.
  • O câmbio — o valor do real frente ao dólar — também reage: embora influenciado por fatores internacionais, poderia estar ainda mais pressionado não fosse a desvalorização global do dólar.
  • A bolsa de valores brasileira tende a penalizar empresas com elevado endividamento ou sensíveis ao custo do capital, o que se intensifica em contexto de juros elevados.

Em suma: a combinação entre arrecadação decrescente no médio prazo, gastos públicos em alta, regras fiscais mais frouxas e política monetária restritiva forma um risco sistêmico para as contas públicas — e para a confiança dos investidores.

A grande lição que emerge da entrevista com Marcela Kawauti é que arrecadar mais não basta se os gastos — e principalmente as regras que deveriam contê-los — não forem rigorosamente observados. Em um ciclo econômico de desaceleração, a fragilidade fiscal do Estado brasileiro torna-se evidente: sem um plano credível de controle das despesas, o país caminha em direção a um terreno de menor confiança, custos de financiamento mais altos e menor espaço para reagir diante de choques.
Para o leitor preocupado com os rumos da economia brasileira, o alerta é claro: o foco deve estar não apenas nas receitas — que podem até crescer temporariamente —, mas sobretudo na governança dos gastos, no respeito às regras fiscais e nas implicações que isso tem para taxas de juros, câmbio e valor dos investimentos.