Por Anaïs Fernandes
O Banco Central diminuiu sua projeção para a alta do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil em 2025 para 1,9%, de 2,1%, refletindo a redução no crescimento esperado para setores mais cíclicos da economia, mas reconheceu que a incerteza no cenário central aumentou. Para o BC, os resultados sugerem que “interpretações sobre o grau de aquecimento da atividade no início de 2025 devem ser feitas com cautela”, disse no Relatório de Política Monetária (RPM) de março, divulgado ontem.
Em um estudo especial, o BC observou que as previsões para o crescimento do PIB no primeiro trimestre de 2025 parecem elevadas mesmo sem considerar a expectativa de boa colheita no período, o que aumenta a incerteza sobre a intensidade da desaceleração econômica no início do ano. Parte dessa estimativa mais forte, porém, pode ser atribuída a questões técnicas, relacionadas ao método de ajuste sazonal, apontou.
Segundo o BC, a mediana das estimativas auferidas para o “PIB ex-agropecuária” no Questionário Pré-Copom (QPC), respondido por agentes do mercado, aponta um crescimento interanual de 2,2% do PIB no primeiro trimestre de 2025, o que resulta em uma variação de 0,9% em relação ao trimestre imediatamente anterior, após a séria ser ajustada sazonalmente de acordo com a metodologia do IBGE. O IBGE usa, segundo o BC, o método direto, ou seja, o PIB com ajuste é obtido dessazonalizando-se a série original do próprio PIB.
Uma alternativa, disse, seria o método indireto, no qual o PIB com ajuste sazonal é calculado pela agregação das séries dessazonalizadas de seus componentes. Nesse caso, a previsão de crescimento de 0,9% para o PIB no primeiro trimestre ficaria perto de 0,3%, valor próximo ao registrado no trimestre imediatamente anterior (0,2%), estimou o BC. Ambos os métodos são válidos e apresentam vantagens e desvantagens, afirmou.
A economia brasileira desacelerou no último trimestre de 2024 e o forte crescimento esperado da agropecuária no primeiro trimestre de 2025 torna mais difícil identificar a continuidade ou a reversão desse processo no começo do ano, e as complexidades do processo de ajuste sazonal parecem particularmente acentuadas para o primeiro trimestre, “justamente quando há grande interesse sobre o valor exato da taxa de crescimento da economia”, afirmou o BC.
Esses apontamentos são importantes porque o primeiro trimestre ajustado é chave para as expectativas do ano, diz Fernando Montero, economista-chefe da Tullet Prebon. Os resultados podem definir “momentum” e carregamento estatístico e pautar cenários, aponta. “O fato de o trimestre estar muito pautado num choque de oferta agrícola pode transmitir economia mais forte que a realidade (para não falar, mais tarde, numa queda maior ou prolongada)”, diz Montero em relatório.
Na avaliação do Itaú Unibanco, com a apresentação desse ajuste sazonal “linha a linha”, o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC parece indicar que, mesmo que o crescimento do PIB do primeiro trimestre seja bastante forte usando o método tradicional de ajuste sazonal, na realidade, a economia está desacelerando praticamente em linha com o esperado. Isso, diz o Itaú, deve limitar a probabilidade de um aumento maior (de 0,75 ponto percentual) da Selic na próxima reunião do Copom.
Em outro estudo do RPM, o BC mostrou que a “inflação importada” foi o fator que mais contribuiu para o desvio do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em relação à meta em 2024.
Do desvio de 1,83 ponto percentual (p.p.) — o IPCA foi de 4,83% em 2024, para uma meta de 3% —, 0,72 p.p veio da inflação importada, de acordo com o BC. Desse montante, a principal contribuição veio da depreciação cambial (1,21 p.p.), seguida das commodities (0,10 p.p.), as quais mais que contrabalançaram a queda do preço internacional do petróleo (-0,59 p.p.).
Exatamente o repasse do câmbio aos preços, no entanto, tem gerado dúvidas entre analistas, diante de comportamento volátil da moeda. Ontem, o diretor de Política Econômica do BC, Diogo Guillen, observou que o IPCA-15, prévia da inflação oficial do país divulgada no mesmo dia pelo IBGE, de março indicou um número menor do que o esperado para a evolução dos preços de produtos industriais, o que acabou se refletindo nos núcleos de inflação.
O IPCA-15 desacelerou para 0,64% em março, de 1,23% em fevereiro, num ritmo mais rápido do que o 0,67% captado pelo Valor Data. A inflação de bens industriais passou de 0,58% para 0,15%, sendo que os industriais subjacentes (mais ligados ao ciclo econômico e sensíveis à política monetária) foram de 0,31% para 0,09%, segundo a MCM 4intelligence. A média dos cinco principais núcleos (medidas para suavizar itens voláteis) acompanhados pelo BC foi de 0,62% para 0,47%. Especificamente o núcleo IPCA-EX3, que reúne serviços e industriais subjacentes, foi de 0,49% para 0,43%.
Guillen destacou que os preços ao produtor desaceleraram, com moderação em produtos agropecuários e industrializados. “Tem tido uma discussão maior sobre industrializados, como vai se dar esse repasse sobre o IPCA”, afirmou.
Sobre o IPCA-15 de março, o Itaú destacou que “a surpresa baixista foi concentrada em industriais, disseminada entre os itens do grupo, sugerindo que o repasse da depreciação cambial pode ser menos intenso do que esperávamos”.
Por outro lado, o aumento de preços de alimentos foi uma das principais influências altistas para o IPCA-15 de março, e o BC destacou, em outro estudo do RPM, que, no caso das carnes, a expectativa é que a pressão continue — o que pesa também sobre a inflação da alimentação fora do domicílio e, em última instância, a dos serviços, monitorados de perto pela autoridade monetária.