Por Adriana Cotias
Se o Brasil não se atrapalhasse, poderia aproveitar a melhora global dos mercados e a percepção local de que a política monetária vai cumprir o seu papel, mas medidas na contramão de impor um certo freio à economia jogam contra isso, segundo Felipe Guerra, executivo-chefe de investimentos (CIO) da Legacy Capital. A grande questão, disse ao participar de evento do BTG Pactual, é se o governo vai permitir uma desaceleração, com anúncios para ampliar o alcance do programa “Pé de meia”, do “Vale gás” ou tirar a restrição à liberação de recursos do FGTS para quem fez o saque aniversário — pequenas coisas que pressionam a inflação e a atividade.
“Parece um macaco num Airbus apertando todos os botões, não sabe onde vai parar. Uma vez que permitisse a desaceleração, o Brasil ia surfar a melhora externa. Se pisa no acelerador, o Banco Central não consegue parar, os juros vão para as alturas para reancorar o fiscal, o Brasil quebra. Se precisa mais juros para viabilizar o que está gastando, a a dívida diverge rapidamente”, afirmou Guerra.
Ele continuou dizendo que o Brasil tem algumas vulnerabilidades que ficam em evidência. Não tem mais a inflação ancorada, algumas projeções já batem em 6% e rapidamente podem subir para 10%, mesmo com os juros próximos de 15%. Com um crescimento de 5 a 6 pontos percentuais no gasto fiscal ao ano, qualquer alta de juros piora esse quadro. Guerra citou ainda o desalinhamento com o governo americano, com a agenda local de “punir companhias americanas podendo converter em algo contra o país”.
Para a melhora recente dos ativos, a cena internacional foi dominante, com um refluxo parcial da tese do excepcionalismo americano, de grande consenso, disse Rodrigo Carvalho, sócio-fundador da Clave Capital, gestora adquirida pelo BTG. “A desaceleração da atividade econômica ficou mais visível, mostrou que os canais de transmissão da política monetária não estão entupidos”, comentou. Outra variável foi o fluxo dos fundos quantitativos que se posicionam em ativos líquidos, como os contratos de juros futuros e de dólar, num momento em que a posição técnica era muito negativa em Brasil.
Mas se rodar o modelo do BC, no câmbio atual, a Selic deveria chegar a 16%, 17% para a inflação convergir para a meta de 3% no terceiro trimestre de 2026. “Não acho que vá acontecer”, afirmou Carvalho. Tomando-se como base as falas públicas de representantes do BC e os documentos da autoridade monetária, 14,25%, 15% são considerados suficientemente restritivos, talvez modulando o horizonte relevante para cumprir esse objetivo.
O gestor da Clave acha que o Comitê de Política Monetária (Copom) vai fazer mais um ajuste de 100 pontos-base (equivalente a 1 ponto percentual) na Selic, conforme o script dado em dezembro, e depois elevar a taxa em mais 50 ou 75 pontos em maio para encerrar o ciclo. “Há vários condicionantes, depende das respostas que o governo for dar para a que da da sua popularidade. Ele está preocupado, vai começar a reagir, daí não sei se o plano do BC de parar perto de 15% se realiza.”
Do ponto de vista fundamentalista, não mudou muita coisa no Brasil, tanto na piora de agosto para dezembro, quanto na melhora deste início de ano, segundo Carlos Woelz, sócio-fundador da Kapitalo. Mas com uma regra fiscal fraca já na partida e a combinação de incentivos ao crédito com o uso de gastos parafiscais, o juro de equilíbio no Brasil subiu, com pressão gigante sobre a dívida.
“Hoje, para equilibrar a dívida, precisa de 3 pontos percentuais a mais de primário e o governo ignora essa realidade”, afirmou. “Piorou porque as pessoas perceberam que a política monetária precisa ser mais alta se não tiver reação para a melhora fiscal”, afirmou Woelz. “Subir juros é uma responsabilidade, tem que ter um plano fiscal para dar sustentabilidade para a dívida.”