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Economia
Brasil se aproxima da metade mais pobre do planeta
PIB per capita cresce menos que a média, e país está mais perto da metade inferior do ranking global
08/07/2025
Valor Econômico

Por Anaïs Fernandes e Álvaro Fagundes

 

O Brasil nunca esteve tão próximo da metade inferior do ranking de PIB per capita dos países para os quais o Fundo Monetário Internacional (FMI) faz projeções, e a expectativa é que o quadro se agrave.

O país deve ter o 87º maior PIB per capita em paridade do poder de compra (PPC) este ano, segundo o FMI, e a previsão é que caia para a 89ª posição até o fim da década, após ter ocupado o 80º lugar no início dos anos 2010. O PIB per capita mede a relação entre o Produto Interno Bruto (PIB) do país e sua população, enquanto o cálculo em PPC pondera diferentes custos de vida entre nações.

Com isso, o Brasil se aproxima da metade inferior do ranking: este ano, nove posições o separam dos 50% com pior resultado, e essa diferença deve cair para seis até 2030. Historicamente, essa diferença já foi maior, como cerca de 21 posições no início dos anos 2000 – o número não é redondo em anos para os quais o FMI tem quantidade ímpar de países com projeções – e 22 em 1980, início da série.

O PIB per capita do Brasil também evolui pior do que a média de países pares: os emergentes devem representar 78% do PIB per capita brasileiro este ano e 82% até 2030, ante apenas 31% no início da série.

Em valores absolutos constantes, o PIB per capita em PPC do Brasil cresceu de US$ 13,7 mil em 198 0, em grande parte impulsionados pela estabilização macroeconômica e inclusão produtiva, mas com uma trajetória marcada por crescimento irregular”, diz Arnaldo Lima, economista da Polo Capital. “Já o declínio relativo reflete o fato de que outros emergentes, como a Coreia do Sul, investiram de forma mais estratégica na qualidade da educação e na el evação da produtividade.”

Silvia Matos, pesquisadora do FGV Ibre, pondera que a comparação com certos emergentes pode ser desfavorável ao Brasil, pois alguns deles ainda passam por transformações estruturais, como a passagem de uma população majoritariamente rural para urbana, e possuem bônus demográfico, o que não é o caso do Brasil. Na comparação com países desenvolvidos, o Brasil tem se saído um pouco melhor, com o PIB per capita em PPC das economias avançadas representando 316% do brasileiro este ano e caindo para 306% até 2030. Essa diferença vem diminuindo desde 2021. Ainda assim, ela permanece superior a o que era no início da década de 2010, quando o PIB per capita das economias avançadas representava 283% do brasileiro, ou dos anos 1980, quando representava 236%.

Só os EUA devem ver sua participação passar de 257% do PIB brasileiro nos anos 1980 para 373% em 2030, estima o FMI. Os maiores avanços, porém, devem ser de emergentes como Coreia do Sul (de 45% para 281%), Polônia (105% para 251%), China (6% para 138%) e Turquia (66% para 194%).

Daniel Xavier, economista-chefe do banco ABC Brasil, explica que a convergência de renda entre países depende do crescimento de longo prazo, que envolve temas como a dotação inicial de capital e trabalho e a produtividade desses fatores. “Dotações diferentes, ou seja, como cada um ‘inicia’ essa corrida, levam a níveis de renda per capita diferentes no tempo.”

Outro ponto relevante, diz, são as taxas de poupança e de investimento de cada país, que operam em equilíbrio. Até o primeiro trimestre deste ano, a taxa de poupança no Brasil estava em 16,3%, o que, para Xavier, condiz com um PIB potencial de 1,8%. “Mas essa taxa de poupança já foi maior no passado recente, perto de 18%, 19%. Isso imporia um PIB potencial maior, perto de 2,5%”, afirma.

A título de comparação, ele observa que a Coreia do Sul tem uma taxa de poupança de 35%, e seu PIB per capita deve ser de US$ 55,8 mil em 2025 e chegar a US$ 61,7 mil até 2030, quase três vezes o do Brasil. “Mas essa foi uma história que começou na década de 1970. A forma como os investimentos foram feitos lá, pensando em capital humano sobretudo, ajuda a explicar níveis de PIB per capita tão distintos hoje”, diz Xavier.

Citando dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT), Lima, da Polo, destaca que em 1991, a produtividade por trabalhador sul-coreano (US$ 33,8 mil) era similar à do brasileiro (US$ 32 mil). Em 2025, porém, o trabalhador coreano produzirá mais que o dobro (US$ 94 mil) dos cerca de US$ 42 mil do brasileiro.

“O que essa relativa estagnação do Brasil conta é que estamos adicionando muito pouco de produtividade ao longo do tempo. Não acho que isso tenha mudado muito nos últimos 20 anos. Quando há momentos de crescimento mais forte, conseguimos melhorar um pouco – se isso não vira inflação, porque a PPC é uma cesta de bens, se tem inflação, o ganho é perdido”, diz André Loes, economista da Vivest. Ele acrescenta que o crescimento errático do Brasil é prejudicial às decisões de investimento, resultando em pouca adição de capital físico e humano e dificuldade em aumentar a renda per capita.

O PIB per capita em PPC do Brasil hoje é similar ao observado em 2013, nota Xavier. “Estamos falando de anos em que o Brasil patinou e andou de lado em termos de bem-estar também, porque o PIB per capita é uma variável que entra no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), é uma aproximação para o padrão de vida da população. Vim os três anos com crescimento do PIB acima do potencial, mas as pessoas esquecem de olhar um prazo mais longo”, afirma.

Matos, do FGV Ibre, observa que perspectivas demográficas também importam. Enquanto o Brasil representava 23% do PIB per capita americano em 2023, a Índia, com 12%, “está em ascendência e ainda vai crescer muito pela demografia e nos ultrapassar”, afirma.

Ele ressalta que o Brasil, que representava 18% do PIB per capita americano nos anos 1950, mas chegou a 35% nos anos 1980, “perdeu a oportunidade de virar um país rico”. Matos compara com Taiwan, que foi de 9% para 88% do PIB per capita americano, e Coreia do Sul, de 8% para 70%. “Mesmo a estagnação, para nós, é ruim, por que estamos em posição, comparativamente ao mundo, pior. E, agora, fica muito mais desafiador manter esse PIB per capita crescendo com essas características.”

Com outra métrica, o Observatório da Produtividade Regis Bonelli do FGV Ibre, coordenado por Matos, calcula que o PIB per capita do Brasil cresceu 1,1% ao ano entre 1982 e 2024, mas com com portamento irregular: 2,5% entre 2001 e 2010, e apenas 0,6% entre 2011 e 2024. Inclusive, de 2015 a 2019, com a crise no segundo governo de Dilma Roussef, houve queda média de 1,2%, enquanto entre 2020 e 2024, após o choque da pandemia, o crescimento médio foi de 1,7%. “Se a gente comparar com Vietnã, Índia, China, a aceleração é muito maior. Dever íamos manter uns 2% continuamente”, diz Matos.

Entre 2001 e 2010, o crescimento foi impulsionado por avanço da produtividade por hora trabalhada (1,6%), bônus demográfico (0,6%) e taxa de participação no mercado de trabalho (0,4%). Já entre 2020 e 2024, o crescimento contou com apenas 0,3% de produtividade, 0,1% de participação e zero do bônus demográfico.

“Aceleramos nos últimos anos, mas já batemos no muro. Vemos um aumento muito forte do emprego, mas está chegando ao limite, e isso se transfere para salários e inflação”, afirma Matos. Com isso, ela diz que o país “está contratando a necessidade de desaceleração da economia”.

Para reverter esse quadro, Lima defende investimentos urgentes em educação básica de qualidade e o alinhamento da formação superior às demandas do mercado de trabalho, “para o Brasil não envelhecer antes de enriquecer”.

Loes observa que o capital humano ruim limita a capacidade de aumentar a produtividade mesmo quando há adição de capital físico, “porque a sua mão de obra não é capaz de extrair tudo que pode daquela adição”.

Para Lima, reformas estruturais para sustentabilidade fiscal e fomento ao ambiente de negócios são indispensáveis, pois, sem ganhos expressivos de produtividade, o Brasil dificilmente “conseguirá romper a armadilha da renda média e aproximar-se dos emergentes mais dinâmicos”.

“Enquanto o sistema educacional não evoluir mais rápido, de um lado, e, de outro, o Brasil não for capaz de produzir crescimento mais estável e as instituições não conseguirem dar um pouco mais de tranquilidade para as decisões de investimento, a situação de o PIB per capita do país ir perdendo posições relativas não deve mudar”, diz Loes.