Por Isadora Camargo
O aumento da escolaridade da população brasileira em dez capitais do país não tem se traduzido em melhoria proporcional de renda e de moradia, segundo a percepção de uma amostra de pessoas que moram há pelo menos dois anos nesses grandes centros. Para compor renda, a busca por atividades extras se mostrou inevitável, segundo a pesquisa “Viver nas Cidades: Desigualdades”, realizada pelo Instituto Cidades Sustentáveis.
Em parceria com Ipsos-Ipec e Fundação Grupo Volkswagen, o levantamento questionou 3,5 mil brasileiros se o nível de escolaridade melhorou de 2020 até julho de 2025. Para 40% deles, o nível melhorou, enquanto para 30% se manteve. A percepção foi acima da média em Manaus e Belém, com 52% e 50% dos entrevistados, respectivamente, indicando que houve melhora no nível de escolaridade individual.
Entretanto, o estudo mostrou também que 56% do total da amostra precisou recorrer a atividades extras nos últimos 12 meses para pagar as contas no fim do mês. Os “bicos” são, principalmente, em serviços gerais, como faxina, manutenção, reformas e jardinagem. Dentre as pessoas que realizaram atividades extras para complementar ou obter renda, as mesmas Manaus (69%) e Belém (70%) demonstraram maior proporção de entrevistados que afirmaram recorrer à informalidade.
Os percentuais evidenciam como é a mobilidade social no Brasil: mais lenta e restrita, segundo Vitor Hugo Neia, diretor-geral da Fundação Grupo Volkswagen.
O conceito vem da sociologia e trata do avanço na hierarquia social a partir de índices de renda, moradia e condições de vida. “Esse cenário evidencia que, mesmo com taxas de desemprego em queda, o peso da informalidade é significativo na composição das famílias, principalmente nas capitais do Norte. A precarização do mercado de trabalho tende a restringir a mobilidade social e não assegura dignidade ao trabalhador no longo prazo”, disse o diretor.
Para ele, a ascensão social no Brasil continua sendo um processo lento que acompanha a concentração de renda, com impactos desiguais entre as diferentes camadas da população, sobretudo nas classes C, D e E. O descompasso reforça a necessidade de articular políticas públicas em prol da educação, emprego e desenvolvimento econômico, acrescentou Neia.
Por outro lado, 57% consideram que sua renda aumentou ou ficou estável em 2024. A pesquisa investigou também a percepção sobre a condição de vida nos últimos cinco anos, em relação à renda e moradia em Belém, Belo Horizonte, Fortaleza, Goiânia, Manaus, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo.
Seis em cada dez (61%) dizem que a renda aumentou ou ficou estável no período. Para 72%, a condição de moradia melhorou ou se manteve; e 70% dizem que o nível de escolaridade melhorou ou ficou estável.
Apesar de haver percepção de estabilidade ou melhora nas finanças pessoais, a mesma sensação não transcende para fora de casa. A maioria considera que a pobreza e a fome aumentaram no Brasil. Dois terços dos entrevistados percebem o aumento do número de pessoas em situação de fome e pobreza nos últimos 12 meses. Para quatro em cada dez, o aumento foi muito expressivo.
Neia lembra que, mesmo com o Brasil saindo do mapa da fome neste ano, a sensação da população, em especial nos grandes centros urbanos, é de que esses índices pioraram.
Embora a pesquisa não use dados oficiais e se baseie nas respostas de brasileiros com 16 anos ou mais, notou-se diferenças regionais na percepção de pobreza. Ela é significativamente maior no Norte e no Nordeste, em comparação com o Sudeste, evidenciando a concentração do desenvolvimento em regiões específicas.
“A gente tem a educação como centro de alavanca de mobilidade social, mas não vamos conseguir reduzir a percepção de [aumento da] pobreza do Brasil, se não tivemos articulação de políticas publicas de inclusão produtiva.”
São Paulo foge a regra do Sudeste. Na cidade, é relativamente maior a parcela que percebe o aumento de pessoas em situação de fome e pobreza (71%). Segundo Neia, muitos fatores atuam sobre essa sensação, entre eles o aumento no número de moradores de rua e a inflação mais acentuada.
Segundo Bruno Lazzarotti, pesquisador da Fundação João Pinheiro, as condições de vida e oportunidades de trabalho no Brasil são tão heterogêneas que deixam a população em dúvida sobre a identidade de sua ocupação, em especial se é preciso ter mais de uma atividade laboral para compor renda. Segundo ele, nos bastidores da pesquisa de percepção, sempre há uma medição do humor da população em relação a diferentes temas, como renda e trabalho.
“Há um tanto de situações de trabalho no país – carteira assinada, microempreendedor, níveis de formalidade e informalidade – que são difíceis de entender. Mesmo assim, denotam na volatilidade de renda média no Brasil, que, por sua vez, vai modular a sensação de melhora na condição de vida”, explicou o doutor em ciências políticas
Lazzarotti acrescenta que o brasileiro tende a se comparar com grupos de referência, isto é, que têm as mesmas características sociais e econômicas, além de ter uma visão política e ideológica que influencia na sensação de pobreza, de renda e de acesso a melhores condições de vida.
“Se eu encurto a distância entre as classes sociais e quem está embaixo melhorou mais que eu, a sensação é de que piorei. Se eu aumento minhas aspirações de vida, consequentemente a percepção de condição de vida também se eleva”, exemplifica. Somado a isso, está o estilo de consumo que vem mudando ao longo das décadas e tem alterado a percepção do brasileiro sobre o que é ruim, bom e muito bom em relação à renda, à moradia e qualidade de vida.
Para o professor da FGV Marcelo Neri, as tecnologias protagonizam essa alteração. “A revolução digital, os combos, a banda larga e o streaming mudaram as formas de consumo das pessoas no Brasil, que antes se comparavam entre si e, agora, se inspiram em realidades diferentes, como a norte-americana, por entrarem em contato com essas informações através das redes sociais.”
Lazarotti concorda que brasileiros adaptam suas interpretações sobre bem-estar e qualidade nas condições de vida a partir do que desejam e nem sempre podem bancar esses desejos, resultando em percepções assimétricas da realidade. Nesse sentido, o imaginário social tende a atribuir as piores situações econômicas às regiões historicamente mais pobres, como o Norte e Nordeste.
“Paradoxos sociais também revelam um bastidor de mudança social de um país. Isso é importante para entender o humor da população, as expectativas da população, mas não é um indicador tão objetivo da situação material das pessoas”, observou.