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Choque nos preços do petróleo pode reduzir espaço para cortes mais profundos nas taxas de juros
26/05/2026
Times Brasil

Guilherme Naldis

Não foram só os preços do barril de petróleo que avançaram com o início da guerra entre Israel, EUA e Irã. Até a primeira semana de março, que antecedeu o início do conflito, o mercado estava em consenso de que a taxa de juros brasileira deveria encerrar 2026 na casa dos 12% ao ano. Passados dois meses, o último boletim focus prevê que a Selic deva recuar somente até 13,25% – refletindo as expectativas deterioradas no mercado nacional.

Isso porque, à medida que o Brasil depende quase que exclusivamente do transporte rodoviário para a circulação de mercadorias no território nacional, toda a economia sofre o rebote inflacionário da alta do petróleo. Isso quer dizer que a escalada dos preços do barril  já alterou as perspectivas para a política monetária no Brasil e nos Estados Unidos, mesmo diante da possibilidade de um acordo diplomático entre Washington e Teerã nas próximas semanas.

Na avaliação de Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, os impactos inflacionários da alta do petróleo já começaram a se espalhar pela economia e devem reduzir o espaço para cortes de juros mais profundos ao longo dos próximos meses.

“Entendemos que, ainda que os preços do petróleo sigam altos, haveria espaço para ao menos mais um ou dois cortes de 25 pontos base aqui no Brasil. Por outro lado, é confortável afirmar que os impactos do choque nos preços do petróleo sobre a inflação já se espalharam de forma que estes seguramente encurtaram o potencial ciclo de cortes que teríamos caso o conflito não tivesse ocorrido”, afirmou.

O economista avalia que o ambiente é ainda mais delicado nos Estados Unidos. Antes mesmo da crise no Oriente Médio, integrantes do Federal Reserve já vinham adotando um discurso mais cauteloso em relação à inflação e aos juros.

Com a valorização recente do petróleo, a expectativa de cortes na taxa americana perdeu força. Para Perri, o cenário atual dificulta qualquer movimento relevante de redução dos juros pelo Fed ainda neste ano, mesmo em caso de recuo mais intenso do barril nos próximos meses.

Além dos combustíveis, Perri aponta que os efeitos da alta do petróleo tendem a atingir principalmente os alimentos, devido ao encarecimento do frete e dos fertilizantes utilizados na produção agrícola.

Toma lá, dá cá 

Ao mesmo tempo em que a alta dos combustíveis pressiona a inflação e aumenta a necessidade de medidas de contenção de preços, o avanço da commodity também amplia a arrecadação com royalties, exportações e tributos ligados ao setor.

Segundo estimativas do Ministério da Fazenda, o aumento do petróleo pode gerar cerca de R$ 40 bilhões extras de arrecadação neste ano. O valor deve aparecer oficialmente no próximo relatório bimestral de receitas e despesas do governo federal.

Assim, a disparada da commodity em meio à guerra no Oriente Médio colocou o governo brasileiro diante de um cenário ambíguo. Para Marcos Saravalle, estrategista-chefe da Crivo Capital, entretanto, o ganho não deve ser suficiente para compensar o crescimento dos gastos públicos e dos estímulos fiscais adotados pelo governo.

“O Brasil já vinha em um processo de forte expansão do endividamento antes mesmo da crise do petróleo. O cenário atual apenas intensifica uma preocupação fiscal que já existia”, afirmou.

Ele explicou que a combinação entre política fiscal expansionista e petróleo elevado acaba aumentando a pressão inflacionária. Nesse contexto, o Banco Central do Brasil teria pouco espaço para reduzir juros. O dano à meta inflacionária, portanto, já estaria feito.