Por Rafael Vasquez
Doenças relacionadas ao saneamento ambiental inadequado, resumidas pela siga DRSAI, causaram 344,4 mil internações no Brasil em 2024, segundo dados de um estudo inédito do Instituto Trata Brasil.
O Maranhão foi o Estado com os piores números na análise de incidência a cada 10 mil habitantes, mas todas as regiões apresentam números preocupantes, com destaque para o Distrito Federal, o segundo pior da lista apesar de sediar a capital do país.
Segundo o levantamento, cada internação por doenças relacionadas à falta de água tratada e coleta adequada de esgoto custou em 2024, na média, R$ 506,32. Portanto, no total, o sistema público de saúde (SUS) teve que arcar com aproximadamente R$ 174 milhões com o tratamento de DRSAI, que são consideradas doenças que podem ser amplamente prevenidas pela universalização do saneamento básico.
Entre as principais doenças relacionadas a esse problema, estão doenças de transmissão feco-oral , como diarreias, salmonelose, cólera, amebíase, febre tifoide e hepatite A, e doenças transmitidas por inseto vetor, como dengue, febre amarela, malária e doença de Chagas.
O estudo aponta que somente a universalização do saneamento básico não zeraria todos os casos dessas doenças, mas tem capacidade para reduzir a incidência em até 69,1% a taxa de internações após 36 meses das instalações – segundo dados do Censo de 2022, 49 milhões de pessoas ou 24,3% da população brasileira ainda usam recursos precários de esgotamento sanitário, o que agrava o problema.
A redução na ordem de 69% na taxa de internações por DRSAI, de acordo com o Trata Brasil, implicaria uma economia de R$ 49,9 milhões por ano ao SUS e a perpetuidade desse ganho – ou seja, o legado positivo para a sociedade brasileira em termos de despesas hospitalares, seria de R$ 1,255 bilhão.
Embora o estudo destaque que houve uma queda considerável no número de internações relacionadas à falta de saneamento básico em comparação a 2008, quando o número foi de 615,4 mil casos, o cenário ainda está bem longe do ideal. Entre os pontos mais preocupantes está o fato de as crianças e os idosos são os mais atingidas pelas DRSAI.
Em 2024, o país registrou um total de 70 mil internações entre as crianças de 0 a 4 anos de idade o que representou 20% do total de internações por essas doenças. Entre os idosos com mais de 60 anos idade foram registradas 80,9 mil internações, ou 23,5% do total de internações por DRSAI, o que contribui para que o número de óbitos por doenças relacionadas à falta de saneamento básico tenha chegado a 11.544 no ano passado.
No caso das contaminações e consequentes internações de crianças na fase da primeira infância, o problema ainda compromet e o futuro individual e a produtividade do país, conforme pontua a presidente-executiva do Instituto Trata Brasil, Luana Pretto.
“É um grande problema principalmente porque é nessa idade que nós temos o maior desenvolvimento físico e neurológico das crianças. Quando uma criança tem episódios sucessivos de diarreia, por exemplo, ela usa a energia d a alimentação para sobreviver à doença em vez de utilizar essa energia para poder se desenvolver, principalmente quando falamos do cérebro da criança que de 0 a 10 anos tem um desenvolvimento muito grande.”
— Luana Pretto
De acordo com Pretto, o impacto se estende, inclusive, para além da primeira infância.
“A criança que não teve acesso ao saneamento, quando é avaliada no Saeb [Sistema de Avaliação da Educação Básica], aos 11 anos, não atinge marcos básicos de desenvolvimento como o cálculo do troco e a identificação de ironia em revistas em quadrinhos. E essa deficiência acaba sendo levada à adolescência, quando temos uma diferença de escolaridade d e 1,8 ano entre quem tem acesso e não tem acesso a saneamento”, diz.
“Se a gente pensa num futuro mais justo e condições iguais de desenvolvimento para as atuais crianças, elas precisam ter o básico que é o acesso a água tratada e coleta de esgoto”, adiciona.
De acordo com a executiva do Trata Brasil, apesar de o Marco Legal do Saneamento Básico (Lei nº 14.026/2020) ter estabelecido diretrizes para o setor e a meta de universalização do serviço até 2030, muitos municípios e Estados estão atrasados nos avanços necessários.
“A grande questão é que investimos, em média, R$ 111 por habitante enquanto deveríamos estar investindo R$ 230 por ano por habitante. Algumas regiões ainda não têm se movimentado e muitos governantes não entenderam que o saneamento pode mudar a vida da população. É uma infraestrutura transversal que precisa ser vista como um ativo político, e não como um passivo. O Brasil precisa superar o velho ditado de que obra enterrada não dá voto”, diz Pretto.
“Tem que ser visto como algo que traz saúde e qualidade e dá mais produtividade aos trabalhadores.”