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Fantasma da estagflação e riscos nas cadeias produtivas tiram o sono
31/03/2026
CNN Brasil

Em 1973, estagflação se mostrou pela primeira vez em nível global

Estagflação.

O termo sombrio, arquivado por um bom tempo no léxico de economistas, formuladores de políticas públicas e governantes mundo afora volta agora à cena.

Trata-se de um fantasma que ganha corpo à medida em que a guerra no Irã se prolonga e o Estreito de Ormuz – por onde passam mais de 20% do petróleo do mundo – segue praticamente interditado à navegação, com raras exceções autorizadas por Teerã.

estagflação é caracterizada por estagnação econômica e inflação em alta, que trazem a reboque impacto no mercado de trabalho e perda do poder aquisitivo da população. Foi o que se viu nos históricos choques do petróleo de 1973 e 1979.

Já é tido como certo que o conflito atual no Oriente Médio vai impactar o PIB (Produto Interno Bruto) global deste ano.

Até este final de março, as previsões menos pessimistas eram de uma redução de 0,5 ponto percentual em relação àquelas divulgadas no início do ano, enquanto as análises mais carrancudas apontavam para 1,2 ponto abaixo do projetado – em janeiro o FMI (Fundo Monetário Internacional) havia indicado um crescimento provável do PIB global da ordem de 3,3% para 2026.

Na primeira grande crise do petróleo, o crescimento econômico mundial desacelerou bruscamente: saiu de 6,8% em 1973 para 2,8% em 1974, e para tímido 1,9% em 1975.

Abastecer o carro nos Estados Unidos e no Canadá já ficou acima de 20% mais caro do que em fevereiro, enquanto na Australia e na Alemanha a alta superou 18% e Alemanha 13%, respectivamente.

Países da Ásia estão sendo especialmente castigados: no Vietnã a remarcação de preços se aproxima dos 50%, enquanto nas Filipinas o governo já sinalizou que suas reservas de combustíveis são suficientes para apenas 45 dias.

Na Coréia do Sul o primeiro-ministro Kim Min-seok alertou que o governo se prepara para “o pior cenário”. No Japão, o governo anunciou a maior liberação de petróleo de suas reservas estratégicas em toda a sua história: segundo a primeira-ministra Sanae Takaichi, uma quantidade equivalente a 15 dias de consumo.

No Brasil, a gasolina subiu mais de 10% e o óleo diesel mais de 20% nas últimas quatro semanas e a tendência é de novas altas nos postos de abastecimento.

O problema não se restringe, evidentemente, a uma menor disponibilidade de petróleo e derivados no mercado internacional, e a preços mais altos.

Trata-se da possibilidade concreta de uma verdadeira disrupção nas diferentes cadeias produtivas, cenário que vimos acontecer durante a pandemia da Covid-19.

O custo de produção e do transporte de fertilizantes e alimentos já começou a crescer, por exemplo, e ameaça principalmente os países mais pobres, onde as pessoas gastam cerca de 36% de sua renda com comida, em comparação com 20% nas nações em desenvolvimento e apenas 9% nos países ricos.

Os números são dos economistas Tobias Adrian e Jihad Azour, em publicação do FMI. Eles enfatizam que agora “todos os caminhos levam a preços mais altos e desaceleração econômica”.

Em 1973, a estagflação se mostrou pela primeira vez em nível global quando a Arábia Saudita e outros países árabes associados na OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) decidiram frear o embarque de petróleo destinado aos Estados Unidos e seus aliados.

A decisão deveu-se ao apoio de Washington e governos ocidentais a Israel naquela que ficou conhecida como Guerra do Yom Kippur, deflagrada em outubro daquele ano quando tropas da Síria e do Egito atacaram bases israelenses na região do Suez, aproveitando o feriado judaico que acabou batizando o conflito.

Na época, o Oriente Médio era responsável por 36% da oferta mundial de petróleo (hoje, 30%) e a OPEP reagiu a aquele apoio por meio do reajuste no preço da commodity em 70% e da redução da produção em 5% ao mês. Criou assim uma súbita e inusitada asfixia econômica no Ocidente e no Japão, seu parceiro asiático.

Os motoristas americanos passaram em 1974 a pagar pela gasolina 45% mais do que gastavam no ano anterior. Em uma Europa Ocidental muito afetada pela crise, alguns governos proibiram a circulação de automóveis aos domingos. O Reino Unido adotou semana de trabalho de três dias úteis para diminuir o fluxo de veículos.

No Brasil, o governo militar ignorou cenários externos sensíveis e continuou com o pé no acelerador, contraindo empréstimos externos para financiar seu projeto de substituição das importações por produção local em diferentes setores – anos depois, a opção cobrou seu preço devido à disparada dos juros que tornou o país inadimplente no sistema financeiro internacional.

Depois de uma certa demora para reagir ao choque do petróleo, o presidente Ernesto Geisel decidiu pelo fechamento dos postos aos domingos e determinou a limitação da velocidade nas estradas a 80km/hora, pensando em tornar as viagens mais econômicas.

Na sua posse, em março de 1974, a inflação já era alta, de 15,5% anuais. Quando ele terminou seu mandato, quatro anos depois, a inflação estava em 40,8%.

Uma das consequências diretas daqueles cinzentos anos 1970 foi a diversificação dos investimentos em direção a alternativas ao petróleo do Oriente Médio.

A descoberta de grandes reservas no Mar do Norte, o uso crescente do gás natural liquefeito e a sempre criticada energia nuclear fizeram parte desse cardápio.

A participação do petróleo na matriz energética global caiu dos 46% em 1973 para 30% atualmente, refletindo ainda o avanço de outras alternativas, como eólica e solar.

É possível dizer que se o Brasil tirou uma lição da crise do petróleo de 1973 foi a criação do Proálcool (Programa Nacional do Álcool), destinado a viabilizar o uso do combustível da cana-de-açúcar nos motores dos automóveis.

Inicialmente visto com reservas pelos consumidores – que chegaram a enfrentar a escassez do combustível nos postos de abastecimento -, o carro a álcool tornou-se confiável.

Hoje, todos os modelos fabricados no mercado nacional são bicombustível, podendo utilizar tanto o álcool como a gasolina. Em sua edição da semana passada, a revista inglesa The Economist chamou essa condição de “arma secreta do Brasil” para enfrentar a atual crise do petróleo.