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Haddad diz que Selic alta vai desacelerar a economia e critica 'remédio em excesso'
Ministro afirmou que o crescimento da atividade econômica será menor em 2025, ficando em torno de 2,5%, devido à política monetária restritiva
31/01/2025
Valor Econômico

Por Jéssica Sant’Ana

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou nesta quinta-feira que o crescimento da atividade econômica será menor em 2025, ficando em torno de 2,5%, devido à política monetária restritiva. Em entrevista à RedeTV, ele alertou que a taxa de juros em patamar muito elevado pode ser “contraproducente” para a economia.
“A taxa de juros no Brasil já está no patamar restritivo, já está no patamar que desacelera a economia. Nós estamos prevendo este ano uma redução do crescimento da atividade econômica de 3,5% para algo em torno de 2,5%, justamente para acomodar as pressões inflacionárias”, disse.
Questionado se haveria possibilidade para rever a projeção do PIB para 2%, mais próximo do que o mercado espera, Haddad negou. “Eu não quero revisar para 2%, porque eu acredito que temos espaço para crescer 2,5%, reduzindo inflação.”
O ministro reconheceu, contudo, que este semestre deve ser mais difícil para a economia, devido aos juros elevados.
Na quarta-feira (29), o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central elevou a Selic a 13,25%, na primeira reunião sob a presidência de Gabriel Galípolo, ex-secretário-executivo da Fazenda. Haddad vem criticando a alta dos juros desde a gestão anterior, de Roberto Campos Neto.
“O presidente Lula tem consciência que muitas vezes você tem que fazer um ajuste de rota, e que esse semestre vai ser mais difícil do que os anos anteriores. Mas o que eu reafirmo é o seguinte: se você já está com uma taxa muito restritiva, às vezes o remédio em excesso é contraproducente. Todo remédio tem a dose certa”, disse Haddad.
Ele reforçou que o governo vai perseguir um crescimento econômico sustentável, trazendo a inflação para dentro da meta.
Sobre preço dos alimentos, o ministro voltou a repetir que, este ano, em função da expectativa de safra recorde e da previsão de acomodação do dólar, os preços devem se acomodar. “Ainda num patamar elevado, até que a produção corrija essa distorção de preços e ele volte ao patamar mais adequado”, ponderou o ministro.
Errar é humano
Em outro trecho da entrevista, Haddad foi questionado se Galípolo, novo presidente do Banco Central, está acertando na dose de juros. Haddad respondeu: “As pessoas que estão lá são de alta competência técnica, o que não significa que aqui na Fazenda, ou no Banco Central, ou no mercado não haja pessoas que erram. Nós somos humanos, podemos errar”, afirmou.
“Não existe essa fantasia de imaginar que, porque o Banco Central é autônomo, ele não erra. Ele erra sendo autônomo, ele erra não sendo autônomo. As pessoas erram”, completou.
Comércio exterior
Haddad também abordou a questão do comércio exterior na entrevista. Ele afirmou que o Brasil não pode dispensar a parceria comercial com os Estados Unidos, mas tem que aprofundar também as relações com a União Europeia, China e Sudeste Asiático. “Nós não temos que nos associar exclusivamente a um ou outro”, disse o ministro.
Sobre os desafios para o Brasil diante da nova política tarifária do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, Haddad apontou o caminho da diplomacia. “O tempo todo em que eu ou o chanceler Mauro Vieira negociamos em nome do Brasil, nós negociamos sempre com o pressuposto de que os grandes blocos econômicos são igualmente importantes para o Brasil “, disse. “Então, nós vamos abrir as portas do Brasil para a China, Sudeste Asiático, Europa, agora com o acordo firmado com o Mercosul”, completou.
Sobre os Estados Unidos, ele disse que, se houver interesse dos norte-americanos em aprofundar as relações, sobretudo na questão de transformação ecológica, “nós podemos fazer uma grande parceria”.