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Economia
Impacto da alta da Selic sobre inflação virá ‘muito mais rápido do que se pensa’
07/02/2025
Valor Econômico

Por Estevão Taiar

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou nesta quarta-feira (5) que os impactos sobre a inflação decorrentes do ciclo de altas da taxa Selic aparecerão “muito mais rápido do que se pensa”.
“O choque de juros foi muito forte, então a resposta [sobre a inflação] virá mais rapidamente, e penso que poderemos ter uma acomodação mais rápida [dos preços]”, disse em entrevista concedida à “GloboNews” e gravada mais cedo.
A emissora postou em suas redes sociais um trecho da entrevista, que foi exibida na íntegra a partir das 23h30.
Desde dezembro, o BC já elevou a Selic em 2 pontos percentuais, para 13,25% ao ano, e sinalizou nova alta de 1 ponto percentual para a reunião de março. Mesmo assim, na ata divulgada na terça-feira e referente à sua última reunião, o Comitê de Política Monetária (Copom) afirmou que o seu cenário base mostra que a inflação ficará acima do teto da meta até junho. Isso representaria um descumprimento da meta e obrigaria o presidente da autoridade monetária, Gabriel Galípolo, a escrever uma carta pública justificando o estouro.
Haddad minimizou, no entanto, a importância dessa carta. De acordo com o ministro, as altas da Selic tendem a fazer com que, no meio deste ano, as projeções do BC mostrem a inflação convergindo novamente para a meta.
“Ainda que em junho eles tenham que escrever uma carta, o horizonte do Banco Central já estará diferenciado”, disse.
A meta de inflação é de 3% ao ano com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. A projeção do Copom aponta para inflação em 5,2% em 2025 e de 4% no terceiro trimestre de 2026, sendo este o horizonte usado neste momento pelo colegiado para conduzir a Selic.

‘Dólar caro’
Haddad afirmou que “não deveria nem ter falado” em janeiro que considerava que o dólar cima de R$ 5,70 estava “caro”. “Foi no calor do debate”, disse o ministro.
Em entrevista concedida à CNN Brasil em janeiro, Haddad afirmou que “não compraria dólar acima de R$ 5,70, porque é caro para as condições de fundamento da economia brasileira”.
Nesta quarta-feira, Haddad afirmou que o ministro da Fazenda “tem que zelar pelo equilíbrio macroeconômico” e que o câmbio flutuante “acomoda os choques externos”. Ele disse que na ocasião quis afirmar que, “levando em consideração os fundamentos da economia brasileira, o dólar tinha descolado” de seu patamar de longo prazo.
A respeito do projeto de lei que isenta do Imposto de Renda (IR) quem ganha até R$ 5 mil, Haddad afirmou que o texto poderá “ser objeto de um detalhe (mudança) ou outro” pela Advocacia-Geral da União (AGU) ou por outros ministérios. O projeto já foi apresentado pelo Ministério da Fazenda para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Revisão de despesas
O ministro defendeu ainda durante a entrevista a importância de o próprio Ministério da Fazenda e o Ministério do Planejamento e Orçamento “revisarem periodicamente” as despesas do governo federal e os gastos tributários. “Precisamos revisar periodicamente [esses temas]”, disse o ministro.
A afirmação de Haddad foi feita depois de pergunta sobre a proposta apresentada pela equipe econômica no fim do ano passado que muda as regras para a idade mínima de aposentadoria dos militares. O ministro defendeu a aprovação do projeto, “até para abrir discussão sobre” outras despesas federais e gastos tributários.
Gestão orçamentária
O ministro afirmou que “a gestão orçamentária será desafiadora até o fim” deste mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT. “Colocar ordem na rubrica A, B ou C é extenuante”, disse na entrevista à GloboNews.
Haddad afirmou, no entanto, que não espera “muitas questões legislativas no ano que vem”, acreditando que a maior parte dos assuntos de interesse da Fazenda que tramitam no Congresso Nacional deverá ser concluída ainda em 2025.
Sobre a limitação dos chamados “supersalários” do funcionalismo público, que faz parte do pacote de ajuste fiscal apresentado no fim do ano passado pelo governo federal, o ministro afirmou que foi estabelecido um “entendimento” com o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), a respeito do assunto.
“Se o projeto que já foi votado na Câmara e que está no Senado voltar com ingredientes novos para corrigir essa distorção, a Câmara está disposta [a analisar as mudanças]”, disse.
Ele afirmou que já se encontrou com ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) para tratar do assunto e que se reunirá na próxima terça-feira com senadores. Segundo Haddad, “existem indenizações [pagas atualmente] que são corretas”.
“Muitas vezes um juiz está substituindo o outro em uma comarca e tem despesas de estadia e alimentação que não teria se não substituísse”, disse.
Kassab
Haddad disse que recebeu ligações de apoio de ministros e parlamentares do PSD depois da crítica que recebeu do presidente do partido, Gilberto Kassab. Em evento na semana passada, Kassab afirmou que Haddad era um ministro “fraco”.
“[O PSD] é um partido que é a da base do governo “, disse o titular da Fazenda na entrevista à GloboNews. “Não sei o que se passou.”
Na entrevista, Haddad afirmou que não pretendia entrar “nesse tipo de disputa, [que] é de mau gosto”. Ele também disse que, “as entregas que fizemos em dois anos, vejo poucos paralelos” em outros governos. Ainda lembrou que o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) saiu em sua defesa na semana passada. Na ocasião, Lula afirmou que Haddad é “um ministro extraordinário” e destacou a aprovação da reforma tributária sobre consumo.
O ministro da Fazenda ainda afirmou que não recebeu ligação de Kassab desde então.