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‘Inflação do PIB’ desacelera e é desafio para arrecadação do governo Lula
Especialistas calculam que receita no ano que vem vai ser pelo menos R$ 20 bilhões menor que a prevista por governo
06/11/2025
Valor Econômico (digitado)

Por Giordanna Neves

 

O deflator do Produto Interno Bruto (PIB), estimativa de inflação das contas nacionais, vem desacelerando e trazendo novos desafios para as contas do governo federal em 2025 e em 2026. Cada variação de 1 ponto percentual no deflator impacta a arrecadação total, para cima ou para baixo, entre R$ 23 bilhões e R$ 25 bilhões, segundo cálculos de economistas. Na prática, a diferença entre o deflator previsto para 2025 (6,44%) e 2026 (5,29%) pelo governo, conforme consta no Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) enviado ao Congresso, implicaria em queda entre R$ 26,5 bilhões e R$ 28,7 bilhões na arrecadação no ano que vem. Considerando as projeções dos economistas para o deflator, o impacto pode ser ainda maior.

Embora a inflação alta reduza o poder de compra e desgaste a popularidade do governo, ela teve efeito positivo sobre as contas públicas nos últimos anos. Isso porque a alta de preços elevou o deflator do PIB e a arrecadação nominal.

Diferentemente do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que capta a inflação ao consumidor, o deflator reflete a variação de preços de toda a economia e, por isso, é mais relevante para avaliar o impacto da inflação sobre as receitas federais. Em geral, o deflator costuma superar o IPCA, especialmente em períodos de alta do dólar, já que os Índices Gerais de Preços (IGPs) – que medem a variação em diferentes setores da economia – tendem a subir mais e puxam o indicador para cima.

Esse efeito do deflator sobre a arrecadação se explica pelo fato de os tributos incidirem sobre bases nominais, como salários e lucros. Quando os preços sobem, essas bases aumentam mesmo sem crescimento real da economia, elevando a arrecadação. O impulso inflacionário, somado às medidas aprovadas para reforçar a arrecadação, ajudou a manter a receita líquida em torno de 18,5% do PIB nos últimos anos, segundo o economista Ítalo Franca, chefe de política fiscal do Santander. Em 2022, por exemplo, quando o governo central registrou superávit de 0,5% do PIB, o deflator aumentou 8,5%.

As estimativas de Franca indicam que, para cada variação de 1 ponto no deflator, a arrecadação total varia cerca de R$ 25 bilhões. Para 2026, o economista projeta deflator de 3,9%, abaixo dos 5,3% embutidos no PLOA, que considera um crescimento nominal do PIB de 7,9%. Essa diferença de 1,4 ponto no deflator implicaria em impacto negativo de aproximadamente R$ 35 bilhões na receita prevista para o próximo ano.

Impacto na arrecadação, já deve ter reflexos em 2025, diz Gabriel Leal de Barros

O economista reconhece que, desde 2023, houve aumento relevante de receitas – equivalente a pelo menos 1 ponto do PIB -, impulsionado por medidas de aumento da arrecadação, mas também pela inflação e pelos preços elevados das commodities. No entanto, alerta que o desafio será maior em 2026. “A gente teve as medidas, foram importantes e elas foram potencializadas por esse deflator mais alto. Agora, isso começa a ter um efeito um pouco desfavorável no curto prazo, sem contar a desaceleração do PIB”, diz.

O economista da XP Tiago Sbardelotto calcula que cada 1 ponto de inflação impacta a receita total em 23 bilhões e a receita líquida (descontando as transferências) em R$ 18,5 bilhões. Para fins de análise, ele assume uma composição de inflação combinando IGP-DI e IPCA.

Conforme as projeções da XP, a queda do deflator implícito – de 5,7% em 2025 para 4,8% em 2026 – resultaria em perda de cerca de R$ 20 bilhões em arrecadação em 2026. “ É o segundo fator mais relevante para a arrecadação, perdendo apenas para atividade”, afirma Sbardelotto. Ele estima que a desaceleração do PIB pode reduzir a receita total em R$ 30 bilhões e a líquida em R$ 24 bilhões.

Os impactos na arrecadação, no entanto, já devem ter reflexos em 2025. Segundo Gabriel Leal de Barros, economista-chefe da ARX Investimentos, a queda da inflação medida pelo Índice de Estimativa de Receita (IER) – composto por 45% de IPCA e 55% de IGP-DI – deve resultar em perda de aproximadamente R$ 22,1 bilhões na arrecadação total este ano. Ele usou as próprias premissas que constam no anexo de riscos fiscais do Orçamento.

Franca, do Santander, também observa que a desinflação pode exigir recomposição de receitas já este ano, ainda que não comprometa objetivo de meta de déficit zero. “Ainda tem uma parte do ajuste para vir por conta da arrecadação. Nós teremos receitas extraordinárias importantes, mas essa parte cíclica pode reforçar a necessidade dessas medidas e pode precisar de novas”, aponta.

O IGP-M nos 12 meses referentes à média do primeiro semestre foi de 7,3%, influenciado por preços internacionais e taxa de câmbio mais alta. Para o segundo semestre, porém, Franca projeta forte desaceleração, com avanço de apenas 1,6%. A previsão indica que o índice deve encerrar o ano em terreno negativo, próximo de -0,5%.

Um deflator mais baixo também reduz o PIB nominal, o que aumenta a pressão sobre a relação Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) em proporção ao PIB. Sbardelotto, da XP, explica que essa pressão se dá por dois canais: pelos efeitos indiretos da queda na arrecadação e pelos efeitos diretos do menor crescimento do denominador da equação dívida/PIB. “Nesse caso, tudo o mais constante, cada ponto a menos de deflator significa 0,8 ponto a mais na relação dívida/PIB”, afirmou.

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