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Máquina federal pode parar em 2027, se ajuste fiscal não for aprofundado, aponta estudo
Cálculo reflete efeitos do pacote anunciado em novembro passado ante os aumentos de despesas decorrentes da inflação mais elevada, em comparação com o projetado em agosto passado
10/02/2025
Valor Econômico

Por Lu Aiko Otta

Há risco de paralisação (“shutdown”) da máquina pública federal a partir de 2027, caso não sejam adotadas medidas adicionais para conter o crescimento de despesas como aposentadorias, salários do funcionalismo, emendas parlamentares impositivas e os pisos de despesas com saúde, educação e investimento. O alerta está em estudo elaborado pelos consultores de orçamento da Câmara dos Deputados Dayson Almeida e Paulo Bijos, o último ex-secretário de Orçamento Federal.
O mesmo trabalho aponta para a necessidade de o Congresso Nacional incluir R$ 22,8 bilhões em novas despesas no Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2025. O cálculo reflete os efeitos do pacote anunciado em novembro passado ante os aumentos de despesas decorrentes da inflação mais elevada, em comparação com o projetado em agosto passado, quando a proposta foi elaborada. O Valor informou sobre essa estimativa no último dia 5.
O estudo vem num momento em que o governo debate internamente se e quando apresentará novas medidas de ajuste fiscal. Após parte das propostas elaboradas pela equipe econômica no final de 2024 haver sido barrada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pelo Congresso Nacional, a estratégia passa por um freio de arrumação, apurou o Valor.
Por ora, o plano central é buscar o cumprimento da meta de déficit zero este ano usando os instrumentos tradicionais, como o congelamento de despesas.
Caso esse caminho se mostre muito duro, Lula poderá ter à disposição um “pacotinho” de medidas para evitar um contingenciamento muito elevado. Um alvo provável apontado ao Valor por fontes do governo é o Benefício de Prestação Continuada (BPC), que vem crescendo de forma preocupante e pode ter critérios de concessão apertados.
Medidas para mudar a estrutura das despesas, como o indicado pelos especialistas, só seriam apresentadas ao Congresso após as eleições de 2026.
Almeida e Bijos projetaram os principais dados do orçamento para o período de 2025 a 2034. Os números mostram como a despesas obrigatórias avançam e reduzem o espaço para despesas discricionárias, uma vez que o conjunto de gastos está submetido a um teto estabelecido pelo arcabouço fiscal.
Em 2027, alertam, o crescimento nominal projetado para o limite de despesas será insuficiente para acomodar o crescimento das despesas obrigatórias e de outros itens que não podem ser contidos, como as emendas e o piso de investimentos criado no arcabouço. De 2026 para 2027, o teto de despesas deverá crescer R$ 164,9 bilhões. As despesas obrigatórias, por sua vez, avançarão mais: R$ 188,1 bilhões.
Pode não ser necessariamente uma situação de colapso orçamentário e “shutdown” porque há sobreposições entre regras de despesas. Por exemplo: algumas emendas parlamentares atendem simultaneamente ao piso de gastos com saúde. Essa administração de margens pode trazer algum alívio enquanto não há soluções estruturais.
“De fato, o que as projeções de médio e longo prazos indicam é que medidas gerenciais ou ajustes fiscais pontuais são certamente insuficientes”, diz o estudo. E acrescenta que “ajustes estruturais mais vigorosos se impõem como necessários para viabilizar a orçamentação pública discricionária e, consequentemente, a própria sustentabilidade da regra fiscal de despesa em vigor.”
A situação é “crítica” já neste ano, apontam os autores. “Referida situação-limite somente não se materializou, até então, tanto em função das economias potenciais contidas no PLOA 2025, estimadas em R$ 25,9 bilhões pelo Poder Executivo, quanto em decorrência de sobreposições existentes entre as diversas deduções abordadas nos parágrafos anteriores, que são simultâneas, mas não necessariamente cumulativas.” A economia de R$ 25,9 bilhões a que se referem é aquela resultante da revisão de gastos.
Almeida e Bijos dão destaque a uma proposta elaborada pelos deputados Julio Lopes (PP-RJ), Kim Kataguiri (União-SP) e Pedro Paulo (PSD-RJ) no final do ano passado, quando o governo elaborava sua proposta de ajuste fiscal. Na época, foi chamada de “PEC [Proposta de Emenda à Constituição] Alternativa”. Ainda está em fase de coleta de assinaturas para ser apresentada.
Ela ataca os supersalários, desindexa despesas que hoje são atreladas ao salário mínimo ou ao desempenho das receitas e propõe que, de 2026 até 2031, as despesas sejam corrigidas apenas pela inflação. Depois disso, entraria em funcionamento o chamado “fator democrático”, no qual cada presidente definiria o critério de correção das principais despesas para o período de seu mandato. A economia com essa proposta foi estimada em R$ 1,1 trilhão, no período 2026-2031.