Em 2020, 22,7% dos novos estudantes desses cursos estavam entre os 20% com maiores notas no exame. O percentual caiu para 14% em 2023, o menor índice da série iniciada em 2018, e chegou a 14,7% em 2024.
De acordo com a pesquisa Panorama da Educação, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), divulgada no final de setembro, 10,3% dos professores plenamente qualificados do ensino fundamental e médio deixaram a profissão (por aposentadoria ou pedido de demissão) em 2022, em comparação com a média da OCDE de 6,4% em 2024/25. Uma pista sobre esse temido apagão.
Mas, de acordo com as fontes entrevistadas pela CNN Brasil, é preciso levar alguns pontos em consideração. O primeiro é a composição da força docente no país: “O Brasil tem uma força de trabalho majoritariamente mais velha. As licenciaturas tendem a atrair pessoas mais velhas, que não saíram imediatamente do ensino médio e foram para o ensino superior, ou que estão em transição de carreira, que optaram por seguir uma carreira de licenciatura depois de ter tentado em outras etapas”, explica Bárbara Born, gerente de Políticas Educacionais do Todos Pela Educação.
No entanto, Gisele Pinheiro, diretora do Singularidades e especialista em formação de professores, considera que o número é preocupante. “Quando levamos em consideração quem desistiu dessa carreira, que não foi um ciclo natural de aposentadoria, nós ainda temos um cenário de que o Brasil fica ainda posicionado de uma maneira muito relevante, ainda é o quarto colocado dentro desse ranking de maior desistência da carreira profissional, que ele nos coloca como um alerta, principalmente quando levamos em consideração que essa reposição”, considera a especialista.
Em 2025, apenas 20,2% dos concluintes dos cursos de licenciatura avaliados atingiram o nível adequado no Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade). Outros 42,2% ficaram abaixo do nível básico.
A diferença é maior quando considerada a modalidade de ensino. Entre os estudantes de licenciaturas na modalidade a distância, 53,1% ficaram abaixo do nível básico no exame, percentual que foi de 26,1% entre os alunos de cursos presenciais.
“Há todo um trabalho que deve ser feito no fomento à carreira docente e à própria permanência de quem escolhe essa carreira, para que a gente não possa ter impactos na aprendizagem”, considera Pinheiro. E esse cuidado deve vir também do professor. “Já que eles estão envolvidos com algo que é de altíssima responsabilidade, que é formar outros, cuidar da educação de crianças e de jovens”, pondera.
Os brasileiros também acreditam que é preciso valorizar mais os educadores. Na pesquisa nacional “O que a população pensa sobre a educação – 2026”, realizada pelo Instituto Ideia e encomendada pela Fundação Itaú, Fundação Lemann, Instituto Natura, Instituto Sonho Grande, Instituto Unibanco e Todos pela Educação, 53% dos brasileiros querem salários maiores para professores, e esse era o tópico apontado como prioridade número um para os próximos governos estaduais e federal.
Ela esclarece que é preciso adotar uma série de políticas de valorização, incluindo o fortalecimento da gestão escolar, a formação continuada e o apoio aos profissionais, desde o começo da carreira. “Valorizar os professores é também uma condição essencial para melhorar a aprendizagem e enfrentar as desigualdades educacionais no Brasil”, propõe.
Born reforça como é preciso olhar para o salário de forma mais geral. “Hoje, o salário do professor em média corresponde a 84% do salário de pessoas com ensino superior. Além disso, é importante lembrar que, em muitas redes, a composição salarial dos professores é feita de uma série de bonificações e aditivos que não são salário efetivamente, né? Então, acho que isso gera também uma insegurança dos professores com relação aos seus ganhos e uma potencial insatisfação”, reflete a especialista.
Além disso, o salário do docente varia conforme a composição de sua jornada a cada ano. “O que significa que você não consegue se projetar financeiramente para os anos que vêm”, reforça.
Bárbara nos lembra de que, quando falamos em indisciplina, não estamos falando apenas em falta de atenção à aula. “Muitas vezes está ligada a comportamentos violentos e agressivos, não só entre os estudantes, mas contra os professores”, reforça.
Para Slemenson, a escassez não pode ser resolvida com apenas uma ação. “As frentes que a OCDE destaca são carreira e remuneração atrativas, formação inicial conectada à prática, acompanhamento no início da carreira, apoio em sala e menos burocracia”, resume.
Porém, ela destaca que enfrentamos um desafio adicional no Brasil, que é a citada fragmentação da jornada, em que os professores trabalham em múltiplas escolas. “Atuar em uma única escola, sobretudo em tempo integral, favorece a relação de confiança com os estudantes, a integração com a equipe pedagógica e a participação na vida escolar, além de criar melhores condições para o planejamento e a colaboração entre professores”, explica.
Pinheiro reforça a importância do acompanhamento da carreira do docente. “Uma vez que ele se formou professor, ele está nas escolas com todo esse cenário de diversidade, que ele também possa ter acompanhamento, suporte e esse compromisso com a formação continuada dele, que é cíclico, e esse monitoramento, esse apoio, fará a diferença para nosso cenário brasileiro”, descreve.
Born reforça como o cenário docente brasileiro é diversificado. Por um lado, na Educação Básica, há a formação à distância dos professores, que não parece suficiente. “80% dos professores de pedagogia estão sendo formados em cursos de educação à distância, que são cursos que têm problemas intrínsecos muito sérios, de qualidade, de oferta de saberes minimamente relevantes para a formação desses indivíduos”, considera.
Já no ensino de Exatas e Ciências da Natureza, em que não há uma atratividade para a Licenciatura, já que essas pessoas podem conseguir empregos na indústria, ou no terceiro setor. Então como atrair tantos perfis diferentes?
“A gente precisa transformar como esse professor está dentro da sala de aula, melhorar as condições de atuação do professor que está hoje na sala de aula, para que os jovens olhem para eles e queiram ser como eles. Nenhum jovem que está vendo o seu professor adoecido, insatisfeito ou deprimido vai querer ser como ele”, considera Bárbara.