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Economia
O erro estratégico do governo
Ao anunciar uma reforma da tributação sobre a renda para atenuar o desgaste político dos cortes de gastos, Lula acabou exacerbando a crise de confiança sobre as contas públicas que o pacote buscava atenuar
06/01/2025
Valor Econômico

Por Christopher Garman

É mais fácil avaliar quais são os momentos críticos de um governo olhando para o passado do que para o momento em que eles se desenrolam. Ainda assim, o anúncio do pacote de corte de gastos do governo no final de novembro – e a enorme frustração que ele gerou, derrubando o câmbio e provocando uma crise nos mercados do país – certamente parece um desses pontos de inflexão. A razão, entretanto, não provém apenas da piora das condições financeiras domésticas, mas também do fato de que ele ocorre às vésperas de um cenário econômico global possivelmente mais desafiador para o Brasil. Condições que, juntas, podem certamente enfraquecer uma candidatura petista em 2026.
Está cada vez mais claro que anunciar os parâmetros de uma reforma do imposto de renda ao mesmo tempo que o pacote de cortes de gastos, no dia 27 de novembro, foi um erro estratégico do governo Lula. Ainda que razoavelmente tímido, o pacote fiscal não foi o problema. A imprensa já vinha noticiando que os cortes chegariam a R$ 70 bilhões, atingindo o BCP, o abono salarial e as regras de reajuste do salário mínimo. A decisão de não mexer no seguro-desemprego foi uma frustração, mas as medidas vieram perto do esperado. A surpresa negativa foi o anúncio concomitante do plano de isentar do IR os contribuintes que ganham até R$ 5 mil mensais, que poderia causar perdas de R$ 40 bilhões por ano aos cofres do governo.
O governo deixou claro que o custo dessa isenção seria plenamente compensado por uma taxação sobre quem ganha R$ 50 mil ou mais por mês e sequer enviou a proposta ao Congresso. Mas a sinalização de possíveis perdas fiscais ofuscou o ganho esperado das medidas de cortes de gastos. Em vez de estabilizar o câmbio, a mensagem foi que o governo Lula já está trabalhando para aumentar o apoio popular ao presidente. O saldo do anúncio foram dúvidas sobre se de fato a medida terá seu custo compensado e a possibilidade de uma reforma fiscal que incentive consumo, e, portanto, pressione ainda mais a inflação.
Uma frase que circulou entre agentes do mercado resume o dano reputacional: “é como reconhecer parcialmente que você tem um problema com álcool. Você escreve uma carta de intenção para seus amigos próximos (neste caso, seus credores e investidores), delineando seus planos de começar um programa de reabilitação. Mas então, você encerra a carta descrevendo entusiasticamente as bebidas que planeja desfrutar logo após sair de uma clínica de reabilitação na qual ainda nem entrou.”
Os resultados foram sentidos imediatamente. O real caiu quase 7%, passando de R$ 5,80 para R$ 6,18 frente ao dólar, e a taxa de juros futura aumentou substancialmente. Um câmbio mais depreciado não só aumenta as pressões inflacionárias domésticas como coloca mais pressão sobre a política monetária para reancorar expectativas. Não por acaso, o Boletim Focus do Banco Central mostra que as projeções para a inflação de 2025 passaram de 4,34% antes do anúncio para 4,96% no levantamento divulgado em 30 de dezembro. E ainda que a maioria dos economistas projete um PIB forte no primeiro semestre de 2025, juros mais altos já levam alguns analistas a projetar uma recessão técnica no segundo semestre.
Assim, ao anunciar uma reforma da tributação sobre a renda para atenuar o desgaste político dos cortes de gastos, Lula acabou exacerbando a crise de confiança sobre as contas públicas que o pacote buscava atenuar.
O câmbio e a curva de juros já refletem os danos econômicos causados pelo anúncio conjunto. Mas o custo dessa decisão pode ser ainda maior, a depender dos contornos do futuro governo de Donald Trump nos EUA. Entre investidores internacionais, a grande dúvida é se Trump vai de fato cumprir suas promessas sobre medidas tarifárias e deportações, que podem pressionar a inflação norte-americana e interromper a trajetória de queda dos juros. A aposta, hoje, é que o novo governo implemente uma versão mais modesta de novas tarifas. As nomeações de Howard Lutnick para o Departamento de Comércio e de Scott Bessent para o Departamento do Tesouro reforçam essa previsão, já que ambos defendem uma política fiscal austera e claramente trabalharão para suavizar qualquer elevação de tarifas.
Mas se Trump de fato implementar tarifas mais duras (como sugerem suas ameaças de taxar produtos mexicanos e canadenses em 25%) e aumentar as deportações, o dólar pode se fortalecer mais, forçando o Fed a elevar juros para conter as pressões inflacionárias. Isso Isso levaria a uma nova rodada de enfraquecimento de moedas de mercados emergentes, como o Brasil, e dificuldades ainda maiores para cortar juros aqui.
A equipe do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, evidentemente reconhece a crise de confiança que vive o Brasil e os riscos de uma piora no cenário externo. O BC vem atuando no câmbio para conter a queda do real, e Lula tentou apaziguar as tensões ao declarar publicamente que Gabriel Galípolo, que assume a presidência do BC em janeiro, terá total autonomia. Haddad também vem dizendo que novas medidas fiscais podem ser adotadas. De fato, pode haver novos cortes de gastos, mas janela política para grande s ajustes ficará menor conforme 2026 se aproxima.
Mas fica claro que o fracasso do governo em apaziguar preocupações sobre as contas públicas deixa o Brasil mais vulnerável a uma piora do cenário externo. Para o Palácio do Planalto, a boa notícia é que o aumento da renda em dois dígitos nos dois primeiros anos de Lula à frente do governo mantém o presidente competitivo em 2026. Isso significa que boa parte do eleitorado acredita estar em situação econômica melhor que durante o governo Jair Bolsonaro. Mas a combinação de uma crise de confiança doméstica com uma piora externa certamente pode enfraquecer sua candidatura.
Só o tempo vai dizer se o fracasso do pacote de gastos é um ponto de inflexão do governo. Mas a combinação do custo doméstico com os ventos externos mais desafiadores sugere que sim.