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Economia
PIB do 2º tri deve mostrar freada mais forte que a esperada
Força do agro, que ajudou crescimento de 1,4% no 1º trimestre, deve se dissipar
01/09/2025
Valor Econômico

Por Anaïs Fernandes e Marta Watanabe

 

Após um resultado forte nos três primeiros meses do ano, o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil deve apresentar desaceleração expressiva no segundo trimestre, mais forte do que a esperada inicialmente, em um movimento que tende a se manter à frente, segundo economistas.

O PIB deve ter crescido 0,3% entre abril e junho deste ano, na comparação dessazonalizada com o primeiro trimestre, de acordo com a mediana das projeções de 73 instituições financeiras e consultorias ouvidas pelo Valor. Entre janeiro e março, o crescimento foi de 1,4%.

Em relação ao segundo trimestre de 2024, a expectativa mediana é de alta de 2,2%, vindo de 2,9% no período imediatamente anterior.

Para anos fechados, a projeção mediana de crescimento está em 2,2% para 2025 e 1,8% em 2026. Em 2024, o Brasil cresceu 3,4%.

Os dados oficiais do PIB do segundo trimestre serão divulgados pelo IBGE na terça-feira, 2, às 9h. Pesquisas setoriais do instituto ao longo do período surpreenderam para baixo e levaram a revisões recentes nas expectativas para o PIB do período.

A BB Asset, por exemplo, mudou sua visão de crescimento de 0,5% para 0,2% após identificar que a desaceleração da atividade a partir do segundo trimestre de 2025, embora prevista, “se materializou em intensidade um pouco acima do esperado”, diz em relatório. O HSBC mudou de 0,4% para 0,2%. O “tracker” (monitor em tempo real) da XP apontava inicialmente aumento de 0,5%, mas a estimativa da casa acabou ficando em 0,3%.

“Vimos um ‘carry [over’, a herança estatística] bom principalmente de serviços no fim do primeiro trimestre e, depois, ficou mais fraco. Parecia que ia ser mais forte, mas acabou decepcionando”, afirma Flávio Serrano, economista-chefe do banco Bmg. “Mas a cara é muito parecida com o que a gente já imaginava: agro para baixo, indústria meio de lado e serviços ainda com alguma resiliência”, diz.

Pelo lado da oferta, a agropecuária deve manter uma alta expressiva na comparação com o segundo trimestre de 2024, de 7,9%, pela mediana da pesquisa, após já ter subido 10,2% no primeiro trimestre. Na comparação direta entre trimestres, porém, o efeito da supersafra deve ter ficado para trás, e a expectativa é de recuo de 1,7% no segundo trimestre, ante o primeiro, quando cresceu 12,2%.

“Espero queda de 1,4% para a agro, mas o IBC-Br [Índice de Atividade Econômica do Banco Central] sugere que pode ser mais”, diz Serrano. O IBC-Br, que tem metodologia distinta das Contas Nacionais do IBGE, subiu 0,3% no segundo trimestre, ante o primeiro.

A indústria, por outro lado, deve retornar ao terreno positivo nessa comparação. Após recuar 0,1% no primeiro trimestre, em relação aos três meses imediatamente anteriores, é esperado crescimento de 0,5% no segundo trimestre, de acordo com a mediana. A maior contribuição deve vir da indústria extrativa mineral, impulsionada tanto pela extração de petróleo e gás natural, que registrou recordes no período, como pela extração de minérios, diz a 4intelligence.

São esperadas quedas, no entanto, para a indústria de transformação e para a construção, que sofrem cada vez mais com a política monetária restritiva. A transformação sente ainda o nível elevado de estoques, observa a XP. No caso da construção, apesar de a massa de rendimentos dos trabalhadores do setor ter mantido forte crescimento, a produção de Insumos Típicos da Construção Civil (ITCC) teve o pior resultado desde 2023, nota a 4intelligence.

Em uma ponta mais pessimista, Luis Otávio Leal, economista-chefe da G5 Partners, espera um PIB estagnado no segundo trimestre em boa medida porque os dados disponíveis mostram um “desempenho muito ruim da indústria de transformação”, afirma. O economista espera que a indústria geral caia 0,5% no período. Antes, a previsão para o setor era de estagnação para um PIB agregado que cresceria 0,4%.

Ainda pela ótica da oferta, os serviços devem acelerar levemente para alta de 0,4% no segundo trimestre, após subirem 0,3% no primeiro e 0,2% no quarto trimestre de 2024. Quase todos os segmentos devem registrar crescimento em relação ao primeiro trimestre de 2025, diz a 4intelligence, ressaltando, porém, que transporte e armazenagem podem se destacar por causa do escoamento da safra.

Os chamados “outros serviços – incluindo os prestados às famílias – e, especialmente, o comércio, no entanto, devem apresentar enfraquecimento no período recente, aponta a XP. Segundo estimativa da casa, os segmentos do varejo mais sensíveis ao crédito recuaram cerca de 2% no segundo trimestre, ante o primeiro.

Do lado da demanda, o consumo das famílias deve desacelerar de uma alta de 1% no primeiro trimestre para 0,4% no segundo, pela mediana. Em relação ao mesmo período de 2024, porém, ainda deve apresentar um crescimento de 1,7%, sustentado pela resiliência do mercado de trabalho e por medidas governamentais como a liberação excepcional do saldo do FGTS. O consumo do governo, por sua vez, deve acelerar de 0,1% no primeiro trimestre para 0,3% no segundo.

“Poucos economistas falariam que com a Selic de 15% teríamos a taxa de desemprego em 5,8%, no dado oficial de junho. Além disso, a composição desse mercado de trabalho tem sido muito favorável para o consumo e para a renda, com massa salarial crescendo e mercado formal nas máximas históricas”, afirma Rafael Perez, economista da Suno Research, que espera uma alta um pouco mais forte do PIB no segundo trimestre, de 0,4%. “As condições para o consumo ainda são bastante favoráveis. Porém, uma questão que estamos monitorando cada vez mais é o alto endividamento das famílias. Parece que esse é um limitador importante do consumo”, diz.

O cenário é bem menos animador para a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), medida para os investimentos no PIB, que deve registrar queda de 2,2% no segundo trimestre, ante o primeiro, quando subiu 3,1%. Se confirmado, será o primeiro recuo da FBCF após seis trimestres de crescimento na margem, nota a equipe do Banco Pine.

A FBCF deve ser afetada pela desaceleração esperada na construção e na produção de bens de capital, diante das taxas de juros elevadas, além da ausência de importação de plataformas de petróleo no período, aponta a 4intelligence. O aumento das incertezas globais também deve pesar, diz o Pine.

Para Serrano, o movimento da FBCF no segundo trimestre, no entanto, deve refletir mais a “devolução” de um primeiro trimestre forte por fatores pontuais, como a produção de caminhões e ônibus.

Com tudo isso, nas contas do Pine, a absorção doméstica – soma do consumo das famílias, do governo e dos investimentos -, sem considerar a variação de estoques, deve ter recuado 0,15% no segundo trimestre. De acordo com a XP, a variação de estoques deve ter ficado ao redor de zero no segundo trimestre, na comparação com o primeiro, mas pode adicionar 0,7 ponto percentual ao PIB total frente ao mesmo período de 2024.

Já o setor externo pode dar uma contribuição positiva para o PIB que não é vista desde o terceiro trimestre de 2023. Desde então, as exportações caem e as importações sobem, ou as exportações crescem menos do que as importações. Para o segundo trimestre de 2025, a expectativa é que as exportações subam 0,8%, ante o primeiro trimestre, enquanto as importações cairiam 1,7%. Se confirmada a previsão de queda para as importações, será o primeiro recuo desde o início de 2023, observa a XP.

Em relação ao mesmo período de 2024, pondera a casa, a contribuição externa deve continuar negativa. A mediana do Valor indica alta de 5,8% para as importações nessa comparação, acima do aumento de 1,9% das exportações.

Confirmada a projeção mediana de alta de 0,3% do PIB no segundo trimestre, a “herança estatística” para o ano – ou seja, se não houver mais crescimento no terceiro e no quarto trimestre – seria de 2,4%. A projeção mediana para 2025, no entanto, está abaixo disso, em 2,2%, reforçando a perspectiva de evolução bastante fraca da atividade no segundo semestre.

“Todo o avanço da economia em 2025 deve ficar concentrado no primeiro semestre, diante do impacto prolongado das condições financeiras restritivas e do ambiente global mais incerto sobre a atividade doméstica”, diz a equipe do Pine em relatório, projetando variação de apenas 0,1% para o PIB no terceiro trimestre, ante o segundo. A mediana das projeções do Valor indica alta de 0,2%.

Daniel Lavarda, chefe de pesquisa econômica no Brasil do HSBC, observa que o mercado parece esperar um crescimento acumulado próximo de zero para o restante do ano. Ele reconhece que essa é “uma hipótese forte, considerando o excelente desempenho da economia local nos últimos anos”, afirma em relatório. No entanto, diz, um cenário de quase recessão no segundo semestre de 2025 não pode ser descartado, levando em conta, por exemplo, as tarifas de 50% dos Estados Unidos sobre as exportações brasileiras. “Especialmente se isso contaminar os indicadores de nível de confiança de setores não relacionados”, afirma Lavarda.