Por Alex Jorge Braga
Apenas 52% dos estudantes brasileiros que têm hoje entre 19 e 24 anos conseguiram concluir o ensino fundamental na idade correta e 41% deles finalizaram o ensino médio no período esperado, segunda pesquisa realizada pela Fundação Itaú.
Esse atraso na conclusão do ciclo escolar tem como consequências vulnerabilidades e menos oportunidades de desenvolvimento para os jovens, além de representar uma ineficiência dos gastos públicos com educação, segundo superintendente do Itaú Social, Patricia Mota Guedes.
Além disso, ela afirma que o atraso no percurso educacional ou a não permanência dos estudantes na escola afeta não apenas o desenvolvimento individual dos jovens, mas também toda a sociedade.
A especialista afirma que, para surpresa de muitos, a questão financeira e a necessidade de ingresso no mercado de trabalho não são os principais motivos isoladamente para o abandono escolar. Segundo Guedes, a pesquisa apontou também a dificuldade de aprendizagem e de vínculo com a unidade escolar.
“O desafio aqui é analisar o quanto a escola faz sentido para esses adolescentes, que, muitas vezes, considera mais atrativo trabalhar”, diz. “É preciso entender por que a vivência na escola está sendo muito difícil, tanto no campo da aprendizagem quanto nos vínculos de convivência.”
Guedes explica que, quando o estudante não está conseguindo acompanhar os conteúdos, a sensação dele é de sofrimento. Daí, ela conta, segue a vontade de abandonar os estudos. “Nós, adultos, quando estamos aprendendo algo e não conseguimos entender, dá uma frustração. Imagina o aluno, que está em sala e as coisas acontecendo sem saber para onde ir”, conta.
A pesquisa evidencia que os estudantes com nível socioeconômico mais alto apresentam trajetória escolar expressivamente melhor do que os mais vulneráveis. Enquanto 70% dos alunos do primeiro grupo apresentam trajetórias regulares, apenas 38% daqueles de escolas situadas em regiões mais pobres conseguiram iniciar e finalizar o ensino fundamental na idade correta.
Segundo o indicador, a trajetória regular entre estudantes negros, que são os autodeclarados pretos e pardos, é aproximadamente 20 pontos percentuais menor do que entre os brancos. Em relação aos indígenas, esse número está em torno de 40 pontos. Os dados mostram que estudantes brancos possuem regularidade de 62%; pardos, 46%; pretos, 41%; e indígenas, 23%.
Em relação a gênero, a regularidade é um desafio ainda maior para estudantes do sexo masculino que estudam em escolas de menor nível socioeconômico, deficientes, negros e indígenas. Cerca de 46% dos meninos têm trajetórias de nove anos regulares, ante 58% das meninas.
Sobre estudantes com alguma deficiência, o levantamento aponta que apenas 22% têm trajetória regular, contra 53% dos sem deficiência. Aproximadamente 56% deles apresentam percursos com muita irregularidade; 64% têm trajetórias com irregularidades (concluem o ensino fundamental com intercorrências); e cerca de 14% desistem dos estudos.
No ensino médio, o governo federal criou o programa Pé-de-Meia para mitigar a evasão escolar. Para Guedes, essa iniciativa pode não ter inteiramente os mesmos resultados no ensino fundamental. Em sua visão, é necessários mais estudos.
“Temos evidências internacionais da eficácia dessa estratégia com adolescentes mais velhos, que estão no ensino médio. Para os estudantes da segunda etapa do ensino fundamental, nós precisamos ter um pouco mais de estudos a fim de ter mais respostas”, diz. “Entretanto, considerando que temos uma parcela significativa dos alunos do nono ano que já repetiram, eles realmente estão em risco de defasagem e o programa Pé-de-Meia pode ajudar.”
Guedes afirma que somente o incentivo financeiro não resolve o problema da irregularidade na trajetória educacional, porque, em sua visão, não há preocupação em transformar a educação e, consequentemente, o aluno fica em uma experiência negativa, pois não tem aprendizagem adequada e há dificuldades de convivência. “Entretanto, em um país tão desigual como o nosso, em que realmente o trabalho acaba puxando muito dos adolescentes, a questão financeira não pode ser ignorada.”
Ela chama atenção para a elaboração nesse ano do Plano Nacional de Educação (PNEM), que traça metas para os próximos dez anos na área. “Nas discussões das propostas, a questão da permanência entra no debate, o que é uma oportunidade para endereçar os desafios e estabelecer metas de permanência e de qualidade na trajetória regular dos estudantes.”
O estudo foi construído a partir de dados do Banco Longitudinal do Censo Escolar, permitindo analisar a população nascida entre 2000 e 2005, acompanhada no intervalo de 2007 a 2019. Essa proposta de análise é uma possibilidade de apresentar o conjunto das trajetórias ao longo de toda a vida escolar do estudante.